Bolicho
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Paredes de pau-a-pique, sete braças de comprido, chão de barro bem batido, cobertura de capim. Garrafas nas prateleiras se entreveram com chaleiras, peças de chita e de brim.
Balcão picado de faca, com algum buraco de bala, posto ao comprido da sala assim meio atravessado. Um banco pra freguesia e um letreiro que anuncia que não se vende fiado.
Bolicho de portas largas que não respeita feriados, que só fecha nos Finados e no dia da Paixão. Bolicho que dá-se o gosto de nunca pagar imposto pro Tesouro da Nação!
Num desafio de risadas, entre um trago e uma fumaça, um índio mente de graça debruçado no balcão; vai repontando lorotas, com o cusco rente das botas e a faca rente na mão!
Enquanto junto à ramada a tava embica na areia, num tiro de volta e meia lançado com precisão, da barriga das guaiacas saltam libras e patacas pro pano verde do chão!
De repente estoura o "rolo" sem que se saiba o motivo! Rude embate primitivo onde advoga o facão, onde o Juiz é o destino que às vezes, fora do tino, castiga quem tem razão!
Quanta saudade ao lembrar-te, bolicho do meu rincão, plantado rijo no chão na volta de um corredor. Centro social da campanha, onde se afogam na canha os deserdados do amor.
Bolicho beira de estrada! a tábua de teu balcão é a mesa de comunhão da gauchada gaudéria; é o rude confessionário onde o guasca solitário chora as mágoas da miséria...