Alma em Verso
Poesia

Visita a Querência

Aureliano de Figueiredo Pinto

Publicado em

Dessa progênie tumultuária vimos! E, descendendo de agitados lares, Prolongamos na américa as andanças De adustos ancestrais peninsulares.

A hora de nossas vidas, - quieto lago Na superfície! – mas no esconso mundo Das remotas raízes, ferve e clama A altaneira, a hereditária flama Que ainda requeima o nosso ser profundo.

Há procelas de oceano em nossas almas. Há vazios de deserto em nossos peitos. Tropel de cargas e derrotas duras. Todo o gênio das bravas aventuras E os ressaibos de arcaicos preconceitos.

Judia astúcia. Veemências celtas. Paixões de mouros. E ambição romana. Pompa fenícia. Rebeliões de ateus. Orgulhos de satã. Temor de deus - Cruzam nos gestos da atitude humana.

Cruéis navegadores. Pobres santos. Párias gemendo nas galeras reais. Nas fogueiras da fé. Nos sóis dos sesmos. Não podemos mudar! Somos nós mesmos No esplendor e as angústias ancestrais.

E plácidos povoeiros junto aos mares. Mansos pastores desfolhando rimas. Amorosos ciumentos e infiéis, Camões – na rude voz dos menestreis, Canções de benardim pelas vindimas.

Depois, na livre américa, as estirpes Se restauram de esplêndido renôvo. Daí êste ar de ingênuos paladinos E a vocação para afrontar destinos Lírica e heróica deste nosso povo.

Sobrehumana aventura, à antiga gente: Criar pátria na américa! E a muralha Traçar das lindes por montanhas ou rio. Mas aqui, em campo raso, as traça o brio E a sangüeira dos campos de batalha.

---------------------------------------------

Daqui parti, menino para o mundo. E sempre que voltava, em reverência Aos entes, animais, árvores, fontes, Sóis, paisagens, coxilhas e horizontes, Eu era um grão de poeira da querência.

Como uma gôta d´água aos sóis fulgia! Na integração dos meus nativos campos, Fui átomo e partícula intranqüila, Célula e seiva, vibração de argila, Molécula de luz nos pirilampos.

Em cada instante de vigília e estudo, Longe de mim mas sotoposta a ausência - Como para nabuco, massangana, era-me a estância, abarbarada e humana, o reduto intangível da consciência.

No sono, às vezes, nalgum sonho errante, Ela surgia em rápidas miragens. E ao despertar, com impaciência brusca, Eu mergulhava no inconsciente em busca Daquelas amadíssimas imagens.

Andante universal pela cultura O pensamento ia de pólo a pólo, - Braços erguidos para os céus do sonho, firme o caráter no materno solo.

E hoje, na velha estância, é qual se ouvira No ar, nos sons, nas cores, nas distâncias A rapsódia dos tempos, em voz baixa. Aduar campeiro! És a encantada caixa De multiseculares ressonâncias.

Aqui volto, afinal, no meu outono. A esta erguida coxilha legendária, Em que nasci ... meu pensamento Vôa às legendas, tumultua ao vento De heróicos ciclos, como a procelária

Nestes largos crepúsculos tranqüilos Ardem no ocaso encenações de glória. No aroma vesperal dos descampados Evoco as sombras dos antepassados Construtores de séculos de história.