Alma Tapera
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Minha alma também é uma tapera Oculta aos muitos matagais dos anos, Sementando os grãos dos desenganos Que o vento planta no final das tardes, Meia aturdida com o temor e o alarde De mil demônios e bichos peçonhentos Em eternos festivais de meus tormentos Que alertam as nuvens dos meus céus covardes!
Mas antes de tapera fui mansões e fui palácios Rodeado de jardins e alamedas, Janela grandes - Cortinais de seda. Portal gaúcho de imponência guapa! Sem jamais imaginar que nesse mapa De tantas geografias e alambrados Viesse ranger porteiras, nesses meus costados, Essa interpérie de visões farrapa!
Pois também tive erguido minhas paredes Com as pedras e o barro da esperança, Tive a alegria e o sorriso das crianças Correndo em minhas loucas vastidões! Tive mistérios nos sótãos, nos porões, E nos labirintos de minhas chaminés, Transmitindo, desde o teto aos rodapés, O calor de minha guarida e meus fogões!
Tal qual a casa nova quando pronta Abre a porta e recebe o construtor, Também escancarei o meu amor E abri cancelas de mim para uma prenda! Transformei-me de rancho pra fazenda, Sovei meus parapeitos pela espera E, finalmente, virei nessa tapera Quando essa china, um dia, virou lenda!
Tive também meus pássaros cantores Clarinando meus oitões bem falquejados, Dei raízes aos pilares afundados Nas entranhas da terra e do cascalho.
Fui "consumo"... Fui sinuêlo... Fui atalho Para o princípio de ternas amizades E abri cancelas aos ventos da saudade Que comprimiam meu teto e meu assoalho!
Tive varandas enormes... Mobiliadas... Cheias de quadros sorrindo nas paredes, Uma sala com flores e com redes Para o descanso de amigos e parceiros. Eu era dono de todos meus potreiros Até perder os antigos moradores Com a abertura de muitos corredores E a chegada prematura dos posseiros!
Uma a uma... Foram levando minhas táboas E espalhando meus pedaços pelo mundo. No princípio fui o lar dos vagabundos E, depois, de corujas e de cobras, Até que a engenharia de minhas obras Fora tragada pela grama e pelas heras. Oficialmente fui tombado por tapera No monte de escombros de minhas sobras!
Agora... Só os vultos andejantes do minuano Visitam minhas paredes carcomidas E alguns fantasmas impiedosos de outra vida Ainda brincam nos meus quartos destruídos; Ectoplasmas dos dias bem vividos Que, nas noites horrendas de hora incalma, Buscam charlas com os espectros dessa alma Como se não estivessem mortos e perdidos!
Porém... Quando se dizimar o último tijolo Sobre o útero do barro em que foi feito, Por certo irá brotar sobre esse leito Apenas sementes de flores e de heras pra que essa alma, lúgubre tapera,