O Poeta de Rua
Morreu o velho Sobral... Que pena, que judiaria... Nunca mais a poesia terá outro poeta igual. Ele era o menestrel, dos mendigos, dos sem nada. O que alma lhe ditava, nem precisava papel, pois não sabia escrever... Decorava cada tema, recitava os seus poemas pra cidade adormecer. Diziam que era maluco, que não ligava pra vida, pois dormia na avenida, embaixo do viaduto.
Pra ironia da cidade, com tanto rico sem nada, o velho poeta juntava restos de felicidade... Tinha tudo que sonhava, neste universo, tão pobre, pois sua alma era nobre e a poesia lhe encantava. O pouco que possuía, repartia com amigos, nas marquises, nos abrigos, nos lugares onde ia, pois acreditava em Deus, tinha fé, tinha ternura... A palavra desventura, ele nunca compreendeu.
Catava restos de lixo, nas ruas dos desenganos, perdeu a conta dos anos... Meio humano, meio bicho... Numa cama de papelão e um céu de estrelas, só seu... Foi assim que ele morreu, tapado de solidão. Quem sabe, Nosso Senhor, pediu que ele ensinasse, pra todo aquele que nasce, em berço de esplendor, que o dom da poesia, não precisa ensinamento... Basta alma e sentimento e as estrelas como guia.
Como pode alguém tão puro, um ser repleto de luz, carregar a sua cruz, por caminho tão escuro? Quem pode enxergar, por dentro, o mistério escondido da alma de alguém vestido com retalhos e remendos!!! Ser feliz à sua maneira, recitando poesia, por entre as latas vazias, no calvário das lixeiras? Neste mundo de aparências, neste mundo de ilusão, carregar no coração, o que nos falta, na essência.
Vivia regando as dores, nos jardins, por entre as grades das mansões de quem não sabe sentir a alma das flores... Cultivadas por vaidade, pra servir de ostentação... Numa falsa ilusão de fingir felicidade... Poeta dos vendavais, catador de sentimentos, sabia benzer o tempo e prever os temporais... Só não sabia o coitado, que o mundo é indiferente e os insensíveis só entendem a vida, depois da morte.
Se foi o velho Sobral... Era um poeta de rua... Que fez da prata da lua... Seu derradeiro lençol.