Celeiro
Semeei sonhos e quimeras pelas terras onde andei... Das sementes que plantei colhi trigo, fiz o pão, arei bem, meu coração... Guardei meus versos singelos e o que restou de mais belo no celeiro da ilusão... Foram safras de emoções, de guitarra e poesia, pra encher a vida vazia e espantar a solidão. Sempre fui bom semeador Mas, às vezes, distraído não li o verso ferido na verga do meu arado. no boi lerdo, cansado, virando erva daninha, para as sementes que eu tinha darem frutos e floração. Abri sulcos pela alma para lançar a semente dos versos que não tem fim... E descobri neste dia que um celeiro de poesia habita dentro de mim. Sentei na volta do fogo, fiz o mate, cortei fumo e assim me estabeleci.... Proseando comigo mesmo dei vazão ao pensamento voltei nas asas do vento pra um tempo que já vivi. Tempos de agruras de vida pela rudeza da lida nas bravas noites de frio Tempos de alma sombria onde as safras de poesia são um celeiro vazio. As dores que dói na carne pelas basteiras dos dias, poderão virar poesia nas entrelinhas da história... Porém as dores de dentro nos tiram a paz e a calma, pois são feridas antigas que sangram dentro da alma, roubando a chave dos sonhos pelos baús da memória. Nestas visitas que faço, reascendo velhos luzeiros busco na luz dos candeeiros, em amarelados cadernos, os manuscritos internos de um tempo quase esquecido que retorna, adormecido, pelos confins da existência... Eu devia ter adoçado as penas e a aridez... Arar... Plantar outra vez, renovar cada colheita... Quando a esperança anda estreita, é preciso acreditar, a vida é de quem sonhar, de quem usar a consciência. Tantos celeiros ergui, perdi o senso e a conta, de tantos lápis, sem ponta, de folhas brancas, em vão, sem uma verga no chão, sem cova e sem semente. Porém, o que mais surpreende, é que alma sente fome e o mais mesquinho dos homens, não é feliz sem poesia! Entre a crença e a heresia, há que se velar a fé.... Ou o homem vive e morre, sem mesmo saber quem é... Assim cruzei pelo tempo gastando a vida que eu tinha, jamais saboreei as vinhas do meu labor sem sentido. De que adianta ter vivido tanto tempo sem viver? De que adianta ter gastado, meu vigor minha saúde, entregando a juventude na busca insana do ter? Até que um dia parei..! Cansei de trotear sozinho, mendigando algum carinho, na solidão do caminho fiz um balanço de mim... E me dei conta que eu era, sementeira de quimeras, ausente feito tapera, sem ânsias de primaveras, com a alma embrutecida das estradas de onde vim... Fui semente adormecida pelos estios desta vida que se olvidou de brotar.... Até que enfim despertei com a alma ensolarada, serenada, enternecida e metáforas de vida singraram do meu olhar... Arei o ventre da terra, escolhi novas sementes, acendi no coração a chama de semeador... Me dediquei ao plantio, deixei pra trás o estio da seara dos sem amor... Botei a junta no arado, lavrei campos e coxilhas, fui abrindo novas trilhas escondidas no meu Eu... E descobri nesta hora que a terra fértil de outrora que jazia adormecida, por ser sedenta de vida aguardou pacientemente por uma nova semente. Sabendo que o semeador andou ausente de si, distraído por aí... Mas, em seu âmago, ela sabia, que ele um dia voltaria pois o sonho não morreu. E eis-me aqui de regresso... Voltei porque o mundo louco recompensa muito pouco aquele que anda a esmo, Voltei porque me dei conta que aqui tem tudo que eu quis e basta pra ser feliz reencontrar a mim mesmo... Das sementes de poesia que semeio todo dia quanto sonho floresceu... Já não planto mais quimeras e as flores da primavera reconhecem quem sou eu. Com as tristezas dos caminhos e as agruras dos espinhos não sofro nem, me comovo, Pois enxergo todo dia meu Celeiro de Poesia cheio de versos de novo.