6. Don Ignacio , Guitarreiro – Danilo kuhn
I Estância da Poesia Crioula - VirtualPublicado em
Acima do céu da pampa existe um pago bendito, sesmaria do infinito onde o horizonte se acampa. Em suas campinas amplas vagam tropilhas de estrelas... Não há cercas nem cancelas nessa querência suspensa, uma seara imensa de esperanças e quimeras.
Na celeste sesmaria, sem capataz ou patrão, a paz dorme no galpão quando a noite emponcha o dia. A noturna melodia que ecoa pelas matas ganha acordes de prata quando a lua tange o breu e a madrugada, no céu, agradece, em serenata.
Don Ignacio, guitarreiro, trastejava pela vida, sina de corda puída, alma de som e madeira. Chotes, polcas e vaneiras bailavam pelo salão ao toque de suas mãos, mas dedilhava milongas pra amadrinhar horas longas de tristeza e solidão.
No ponteio da saudade, cada nota musical fere feito um punhal. Saudade não tem piedade quando o passado invade verso, estrofe e refrão. A saudade é um bordão que soa uma nota só quando a solidão, sem dó, bordoneia o coração. Don Ignacio, guitarreiro, em derradeira canção, abraçado ao violão, da morte abriu as porteiras. Sua alma, além fronteiras, vislumbrou um pago santo, onde poesia e acalanto pautavam o firmamento. Em suas claves, o tempo orquestrava lume e encanto.
No infinito, Don Ignacio arpejou a própria vida, página lida e relida... sentiu o amor em seus braços, presente em cada compasso, contraponteando seus cortes. O amor mora nos acordes que vibram nas entrelinhas quando a pauta amadrinha a canção da nossa sorte.
Acima do céu da pampa existe um pago bendito, sesmaria do infinito onde o horizonte se acampa. Em suas campinas amplas, com cantigas na algibeira, depois de uma vida inteira tangendo cordas de espinho, viu que há flores no caminho Don Ignacio, guitarreiro.