Tributo à Costureira
Vem dos tempos recuados, Bem antes das lamparinas, Esse ofício que a menina Aprendera co'as avós, Tesoura, linhas, retrós Conhecer era preciso, Chuleado, barra e friso, Lapela, punho e cós. A menina se fez moça Bonita, com predicados, O rapaz enamorado De pronto se apresentou Um grande afeto brotou Nas conversas e passeios, De repente, no entremeio. O Exército o convocou. Os pais deram a bênção, E o casamento foi feito. Poucos dias se deu jeito Para a festa improvisada, Toda gente emocionada Assistiu - como foi lindo! E a noiva estava vestindo Roupas brancas, já usadas. As mesmas vestes da mãe Usou em seu casamento, Serviram, foi-lhe um alento Embora quis costurar O próprio vestido e usar, Mas o noivo, convocado, Fez tudo mais apressado Para o amor consumar. Em juras de amor eterno, Lágrimas, felicidades, Compromisso-fidelidade, Tudo estava tão perfeito, Poucos dias, desse jeito, E o marido foi pra guerra, Pois quem ama sua terra Veste a farda em respeito. Sem notícias do esposo, Nada informavam a ela, Para sustentar-se, apela À costura - falta estudo E, com restos de veludo, Fazendo roupinhas quentes, Pois já trazia no ventre O fruto do amor, que é tudo. Nasceu um guri taludo Que na imagem sobressai, Era o retrato do pai Que nunca ía conhecer: Pois à mãe vieram trazer A bandeira e uma medalha E um pano que foi mortalha De um corpo a se desfazer. E como jamais voltaria Das roupas que ele deixou, A mãe costureira criou Trajes gaúchos pro piá. Fez para ele um chiripá, Lenço, boina, bombacha; Como guaiaca, uma faixa, Para o pai homenagear. Assim, seguiu costurando Viscose, linho e algodão, Cerze a dor da solidão Lembrando de quem morreu, Abraçar-se ao filho seu Torna o dia mais risonho E borda seus toscos sonhos Àquele que nunca esqueceu. Dubruçou-se, muitos anos. Sobre a Singer, de pedal, No dedo médio, o dedal, Sua relíquia, de prata O olhar cansado retrata Que costura é paciência, Talvez até mesmo ciência De quem luta por la plata. Os seus dedos já delgados Como fios de barbantes Mostrando sonhos distantes Perdidos em desalinho, São veredas e caminhos A quem a sorte, ora falha, E só recebe as migalhas Por viver entre os espinhos. Em cada peça que cose Sai um pedido da fila Levando unha e pupila Da artesã das costuras, E retalhos de amargura Também tecem sua obra, E muito pouco lhe sobra Do suor e desventuras. Costureira não vai a baile! Seus vestidos, estes sim, Longos, azuis, carmesins, Enfeitam as belas damas, Sem elogios, não reclama Aquela que noite adentro Lutando pelo sustento Nunca conheceu a fama. É a vida de quem costura: Trabalha sem reclamar, Medir, dobrar e passar, Tudo ela faz com destreza, Nos retalhos vê a beleza, Emenda, faz acolchoado, Arco-íris matizado... Em lindos panos de mesa. Tudo isso porque ela Teceu co's fios da decência, Dando ao filho, na carência, Estudos - a sua herança, Desse modo a criança, Sem pai, construiu história, Das derrotas, fez vitória Com esteio nas lembranças. Co'a pena, feito uma agulha, Risquei folhas de papel Desfiando o carretel, Nestes traços de ternura, Apontando pras alturas, Reverencio a costureira, Mulher valente, guerreira, Que viveu entre as costuras.