O Campo por Mortalha
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Ah! este “meu” pingo mouro… meu, pela lealdade, da estância -propriedade- pela marca do patrão. Eu, no “más”, um pobre peão de assobios milongueiros com alma de campeiro repontando o coração.
Na forma da mangueira este pingo era -confiança-. Orelhas, ponta de lança, florão em meio a tropilha. Pingo da minha encilha, assim, por anos a fio… mouro do trote macio onde me fiz forquilha.
O tempo é passageiro e o destino, maleva, e por vezes nos leva o que temos de valor. E “meu” mouro -pingo flor- pela idade e desgaste, foi vendido à um mascate, andante do corredor.
Vendo aquela situação me parei “muy” intrigado… -Meu Deus, será pecado um cavalo envelhecer? Trabalhou sem conhecer, cansaço nem lamento, e quem lhe tirou sustento por injustiça lhe vender.
Junto de tantos outros se perdeu no horizonte, aos gritos e em reponte por certo sem entender. Eu, também, sem compreender, que me abateu a tristeza, pela larga incerteza… do “meu” mouro, o que vai ser?
Numa folga da estância depois de ano, passado, fui ao rumo do povoado pra trazer um sortido. E no “más” garantido, Avil, papel e fumo… mais algo pra’o consumo, que falta ao “mantenido”.
Mas triste a cena que vi ao virar de uma esquina, senti queimar retinas quando a lágrima, empoça. E minh’alma se destroça ao ver o velho mouro, virado em osso e couro, puxando uma carroça.
Em seus olhos tristonhos marejados de inconstância… um pingaço de estância sucumbiu na cidade. Coisa triste, e é verdade, vi lágrimas no seu olhar, e vi o clamor exalar como pedir -piedade-.
Aqueles olhos parados que pareciam falar, como querendo contar seus íntimos segredos. Eu, sempre fui rochedo não sou de me comover, mas me senti esmorecer ao escutar os seus medos.
Pois então, fui escutando no seu triste relato, cismas, tristezas, fatos… no embaçar das retinas. -olhe então, minhas crinas sem toso, emaranhadas, cola encarrapichada que me tocou esta sina.
E continuava a contar: -olha estas cicatrizes, são marcas infelizes deste relho trançado. Venho sendo judiado, todo dia, sem arrego, corda, grito e refrego nas ruas do povoado.
-Me lembro lá da estância… “la pucha” que saudade! Bem melhor que a cidade, te afirmo, por inteiro. Fico aqui, num potreiro rapado que dá pena, onde a alma se apequena tal qual um cativeiro.
-Amigo! Já sou velho o focinho, já branqueou e alguma junta, engrossou, e a força vem faltando. Não estou me entregando pra esta gente maldosa, mas dói… a trança impiedosa na minha alma, açoitando.
-Lembro, na recolhida teu assobio milongueiro, adentrando ao potreiro me regalando um afago. Aqui, o gosto é amargo, milongas! Ninguém assobia… é… somente judiaria distante do meu pago.
-A la pucha- o meu pago, onde sonhava morrer, ao cair do anoitecer no alto de uma coxilha… Florido de maçanilha sob um céu estrelado, e talvez ser velado junto à minha tropilha.
Neste instante decidi, já por força do embalo… e comprei “meu” cavalo pra ser meu, de verdade. E lhe dei liberdade no fundo de um campito, pra não ser mais solito, bem longe da cidade.
E falei, bem baixinho, ao lhe sacar o freio -amigo, vai… sem receio, se encerrou tua batalha. E quando na última talha, que a morte faz sua prece, todo campeiro merece… o campo por mortalha.