Alma em Verso
Poesia

Micro Estância Global

Vinícius Antônio Machado Nardi

Publicado em

Nosso tempo é de discussão de ritmos De temas e de lemas Construção de dilemas Na cega obediência a paradigmas Traçam-se vidas teatinas No marchar das calçadas Templo de formigas aprisionadas Em cátedras retidas.

Nosso tempo É substância que se esvai Que não tolera devaneios Utilizando de todos os meios Na repressão da poesia E trabalha com maestria Na concepção de abortos Fetos nascidos em desencontros Sustentando a vida da nostalgia.

Ficaram anos de Maquiavel Retratados em nosso cerne.

No lombo dos transistores Atropelam-se fronteiras E a ácida crítica se constrói. Tempo de inertes e vazios Rotulados “vácuos em cio” Meliantes à Tolstoi.

Mas o tempo é de mutação E por isso tanta incompreensão.

A poesia há, Sim senhores. Embora detida no cárcere Construído ao longo do tempo Na vida plana do lamento Dos que nos dizem repetidores.

Nosso tempo embora maculado É propriedade histórica de avanços Não tão inertes e mansos Que justifiquem os rejeitados Vivemos animais enjaulados Aplaudindo nossas cercas Embora seja clichê e obsoleta A retórica dos agraciados.

Ouvem-se discursos homogêneos Sustentando a nobre crítica São paritárias encíclicas Jogando na sarjeta os de nosso gênero

E nas palavras repetidas Valora-se a dor da perda “Foram-se as domas e potreadas Ficou a juventude transviada”. Ainda não descobriram os nobres senhores (talvez por excesso de seus valores) Que trocaram-se cuias por teclados Mas que seguimos irmanados Pintando quadros com nossas cores.

Defendo nosso tempo Dito de dor e sofrimento Mas que não é de todo mal Eis a hora do ponto final Nas alcunhas de “perdas e esvaziamento” Que ocorreram a qualquer momento Não sendo uma especiaria Vivida apenas em nossos dias De micro-estância global.

Crédito da fonte: Vinicius Nardi