O Ultimo Pealo
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Na estância das “Três Marias” A tarde vinha morrendo, O sol ia se escondendo, Sob sangüenta mortalha; a noite, lúgubre imagem, Sob soberba paisagem, Estendia o negro pala.
Qual fantasma impertinente, Num dos moirões da porteira, Cismarenta e agoureira, Uma coruja velava, E no fundo do galpão, A cuia de chimarrão, de mão em mão se jogava.
Enquanto a peonada alegre, Charlava e se divertia, Contando os causos do dia, nas parada de rodeio, O tio Nicássio encolhido, Ficava como esquecido, Riscando o chão com o dedo.
Já fazia uns par de anos, Que na estância era agregado, Sempre quieto, mui fechado, Falando com sua memória... E nessa noite o posteiro, lhe pedi, meio matreiro: - Conta Nicássio tua história!
O velho ergueu-se do banco, E foi à porta do galpão, E viu o primeiro clarão, De lua que apareceu; Voltou, tornou a sentar Dizendo “Vou lhe contar” Como aquilo aconteceu...
No tempo que eu era moço - Que tempo bom, sim senhor! Era o maior pealador Que jamais pisou na estância, Tanto a pé como a cavalo, Acertava qualquer pealo, Sem medir bicho e distancia.
Tinha um pingo macanudo, Boas pilchas, bom apero, Na guaiaca algum dinheiro, Tudo estava de colher, Até que numa gerreada, Senti a primeira chifrada, Dos olhos duma mulher.
O amor, guri moleque Se me atravessou na vida E foi carreira perdida, A lo largo me venceu, Pois, me trouxe uma china Que era estrela vespertina, Que do céu se desprendeu!
O namoro foi curtito, Em seguida nos casamos E o nosso rancho enfeitamos Com um mundo de carinho; Quando um dia, encabulada, Me disse: “Esta de chegada nosso primeiro filhinho...”
Tudo foi festa, alegria, E como era domingo Botei o freio no pingo Para ir ao armazém, Quando ela veio mimosa, Dizendo-me carinhosa: - Eu te acompanho meu bem.
Trouxe o zaino do piquete Destinado à minha amada; Fomos descendo a canhada, Ao tranquito, bem juntinhos, Enquanto da mataria, Vinha aquela sinfonia, Do canto dos passarinhos...
Costeava-mos um repêcho Quando uma lebre pulou, O velho zaino espantou E a campo fora endireita, A china quis sugeitá-lo, Mas não é qualquer cavalo Que assustado se sugeita.
Vendo que ia em direção, De horrível despenhadeiro, Desatei mais que ligeiro O meu laço velho amigo, E naquela disparada Lancei ao vento a armada Sentindo perto o perigo.
Quando o laço se fechou Nas duas patas dianteiras, Bateu o zaino as cadeiras Junto ao despenhadeiro, Mas a china, pobrezinha, Ficou no chão tão quietinha, Que eu tive medo, posteiro!
Fui chegando devagar, Pra junto do meu amor. Ainda sinto aquela dor, Que me cobre como um véu, Quando vi minha querida Pálida, muda, sem vida, Entregue ao Papai do céu!
Junto com ela se foi A ultima esperança; morreu também a criança Que ela levava juntinho. E eu, por vontade de Jesus, Vou carregando esta cruz, Tão magoado e tão sozinho...
Ao cair sobre o meu lombo, Os arreios do fracasso, Dei de presente o meu laço Não subi mais a cavalo; Mas eu não posso esquecer Que ela tinha que morrer, Com meu último pealo.