Alma em Verso
Poesia

Um Tal "Nego do Porfírio"

Osnei Scheffer de Oliveira

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A função de Delegado Sempre exige valentia Pra enfrentar o dia-a-dia E o banditismo deflagrado, Sem muita ajuda do Estado E quase sem pessoal, Nos viramos bem ou mal Atendendo o que se pode Pra valer o fio de bigode O revólver ou o punhal

Fui nomeado Inspetor - Há quase vinte anos - Atuando com tutano Combatendo o infrator, Guardando trabalhador E as famílias de respeito Dizendo o que é Direito, Que aqui se aprende cedo Pois um maula não tem medo E tenta a sorte a qualquer jeito

Pra que a coisa vá no trilho Sem dar cancha pra índio vago Tem o Mario e o Tiago E também tem o Gracilho, Um é bom no gatilho Outro conhece a região E juntos dão condição Pra cumprir os requisitos E atender bem o Distrito Que é a nossa obrigação.

A Cadeia é um decreto Ali na beira da estrada Dando alerta para a indiada Que se faça o que é correto, E que siga um rumo reto, Pra não ver o Delegado Que é temido e afamado Em toda a redondeza Pela coragem e destreza Se o gatilho é beliscado

Quem troteia pela estrada E traz no peito um distintivo Deve sempre andar ativo Cuidando cada emboscada Vai na frente a guaipecada O Guarany e o Tenente Meu soldado mais valente "Pra" algum mal-intencionado Que se ache entocado Esperando pela gente

Na encilha um companheiro - Meu Burrão bem arreado - Cruzando de lado a lado, Tranco velho bem tropeiro... Nas precisão é mui ligeiro, E onde eu vou está comigo. E se pressente o inimigo Troca orelha e trava pata E antes que o cusco lata Já me livra do perigo

A lida é sempre braba Aqui na velha Liberata, Não lhes conto por bravata Se "às veiz" o céu desaba E a valentia acaba Quando aponta o tal de "Nego" E quando chego - eu chego - De chapéu velho tapeado Pra riscar os condenado Do bem rico ao mais pelego

Mas tem coisa que assusta Até mesmo um "sem frescura" - É fazer as captura - Sem saber se é ordem justa. Reunimos tropa robusta De parentes corajosos Mas, não somos criminosos Só cumprimos o dever Sem direito a se abster Ou dar vida aos revoltosos

Certa vez um pistoleiro Desafiou o delegado, Por valente era afamado E até bom cavaleiro, Diz que até era gaiteiro E ali foi o seu final, A cordeona deu sinal Que o fandango se acabava E um "trinta" prenunciava O enterro e o funeral

Noutro dia outra peleia De outro grande pistoleiro O afamado "Tamanqueiro" - Lida osca e até bem feia - Na noite de lua cheia Se quedou mais um valente, E o perigo recorrente Que apavorou a região É agora cruz no chão E na memória desta gente

Volta e meia um abobado Que me cria um embaraço Trago atado pelo laço Desfilando no povoado, Vem de lombo desenhado Da visita da soiteira Que espantou qualquer coceira Ou sinal de valentia, Pra esse "sem-serventia" Ter lembrança a vida inteira

Até alguns andam dizendo Que eu pratico crueldade, Mas isso não é verdade Só estamos defendendo Aqueles que andam sofrendo Sem quartel e nem guarida, Dessa escória bandida Que eu enfrento todo dia A peitaço e valentia Com risco da própria vida

Às vezes fico pensando Do "porquê" ser Delegado? Tendo plata, campo e gado E ando no mundo penando, Se o povo está precisando Não me arredo da função Sigo assim nessa missão Que me cabe por martírio Sou o Nego do Porfírio Sou a lei nesse sertão!