Um Guri que Sonhava
José Mauro Ribeiro Nardes e Severino Rudes Moreira
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Quando o dia boleia a perna, O céu e a terra se abraçam, A passarada brinca em gorjeios, Brindando o arrebol que passa.
Fagulhas vão surgindo, Bazeiro vindo do nada; A pampa se veste de luto. A quincha fica bordada.
A passarada toda se aquieta, O brejo abre a cantilena. E um guri percebe no breu, Tudo em volta se apequena,
Sob a copa de um cinamomo, Que nem filhote entanguido, Em sonhos vence o tempo, E se imagina crescido.
Vai embusca do fogão amigo, Que geada grande se anuncia, E no mate amargo do pai, Um novo gaúcho se cria.
Se desfaz das calças curtas, Para vestir um brim riscado, Solta pro campo o petiço, E senta as esporas num gateado.
Esse guri que antes sonhava É o homem que está aqui Igual na saudade de tantos Que deixaram de ser guri.
Vivemos buscando o amanhã Pois gente tem pressa demais, Subtraímos o melhor do tempo, Que só a memória nos trás.