Um dia bom pra se morrer
Publicado em
(Antevisão e Transcendência de um velho poeta)
Hoje é um dia bom pra se morrer... Escreveu o poeta chorando... ...
A face cansada, num rosto tristonho, Era espelho de uma alma bordada de ilusão... Olhos compridos, sonho atrelado, Marcas profundas no coração!
A alma fraterna, de poncho emalado, Estava aos poucos dando partida Para uma nova e derradeira existência... Estava ali o poeta, fitando sereno seu fim...
Sobre a cadeira de palha, Debruçado na escrivaninha, Tinha apenas seu lápis calado, Parceiro rude e abarbarado, Tão singular companhia...
Ao longe, seus olhos, perdiam horizontes... Miravam distâncias além do infinito. Miravam recuerdos, miravam resquícios... Miravam saudades de um tempo tão bom...
Seu corpo cansado, na palidez abatida, Carregava as cargas das sobras da lida... Retalhos de outrora, mostrando suas garras Nos pealos do tempo desta invernada da vida...
Retrato de um homem aguerrido a esperar pela morte... Já quase cem primaveras sem ofuscar seu semblante... Nesta noite apagada quem clareou a madrugada Foi uma lua minguante...
As obras emudecidas estavam sentindo a partida... Uma tropilha de versos, na orfandade chegada, Por entre meio a história, o sentiam perecer... Quem sempre escreveu pra vida, Percebendo sua partida, Prenunciou num rabisco que ia morrer...
Noites em claro mirando as estrelas, O cruzeiro e as Três-Marias... Noites de insônia, de inspiração... Tantas noites de alegrias, Tantas noites de poesias A escorrer por suas mãos!
Na lareira, o fogo amigo de sempre, Das madrugadas friorentas, Perdia aos poucos seu garbo Por entre as brasas da pitangueira. Faíscas tremeluzentes, ao calor da brasa viva: Suas últimas companheiras.
A labareda da vida se entregava a uma nova existência... O poeta, de missão cumprida, Assim como as brasas, estava apagando. No seu ultimo risco, escreveu num rabisco: “No céu estarei versejando!”
Foi quando um suspiro comovente Quebrou o silencio da hora... Caiu o seu lápis, num gesto esquisito E seu último amigo rolou e se foi...
No mesmo instante marcado, Já estando com Deus o poeta compõe:
“Aquele descrente que um dia pensava Que a morte o levava a um fim, a-lo-léu”, Enganou-se em seus argumentos, Pois o firmamento não é um mausoléu. É a morada, por Deus escolhida A quem toda a vida, mereceu morar no céu!”