Alma em Verso
Poesia

Dulcinéia de Fumaça

Uili Bergamin

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Como esfinge a ser decifrada mais um Quixote entre tantos vai o velho à pedra de encantos uma légua ao sul da tapera no lombo do flete, acelera esporas no couro do bicho à procura do sonhos o nicho onde repousa, silente, a amada.

Segue sempre à luz da tardinha na iminência da noite grande não ladeio, por mais que eu ande o Rocinante deste fidalgo que vai procurar por algo ao pé da rocha-santuário cavaleiro andante, solitário sem vista de Sancho, só minha.

Não leva consigo uma lança nem escudo ou elmo, nem espada apenas voa na estrada assoviando com o Minuano em seu delírio, ano após ano achando cura pra desgraça no cachimbo e em sua fumaça que apenas pra ele dança.

Senta-se à pedra, ronda lonjuras como a ver algo que se aproxima ressurreição de um mito, uma sina na solidão da campanha que à fumaça divina se assanha em silvos de vento no rosto como se fosse do seu gosto sorver do cachimbo as agruras.

Ouve uma voz e não medra algo sutil, pedregoso mas é fumo em estado gasoso que lhe inspira fiel culto naquela fumaça vê um vulto vindo do centro do universo que vai lhe ditando versos brotando por entre a pedra.

Nas mãos empunha um caderno nele se curva, sombrio-alegre ainda menos sombrio que alegre e vai rasurando poesia mas só dura um tempo a alegria tempo de fumaça e cachimbo o sorriso cai logo no limbo onde dorme seu amor eterno.

Naquele Reino de Sacrifício o velho lambe saudades tempo ido, outras idades de gineteadas, caminhos nem quer enfrentar moinhos duelos já não quer mais e tal e coisa e coisas tais só quer se acabar no vício.

Certo dia, por curiosidade pedi ao velho, que fumava triste diz meu pai, que mistério existe neste cachimbo que vai à boca qual acalanto, coisa louca espanta a dor da tua querência o que vês, ou qual ausência te inspira versos de saudade.

Foi muito simples o que indaguei ele tragou, foi respondendo se tu visses o que estou vendo fumarias mais do que fumo o cachimbo mantém meu rumo pois na fumaça que vai soltando vejo pouco a pouco se formando a imagem da china que amei.