TROPEIRO DAS ÁGUAS - Edson Marcelo Spode
19º Bivaque da Poesia GaúchaPublicado em
Dom Hilário, firmou a mirada Pro lado que a chuva encilha Balseiro de oficio e cartilha Bombeando as barras do poente É assim como o peito da gente Quando em suas secas do amor Campeia um bom "chovedor " Ansiando que vire enchente.
E o velho Uruguai lendário Embala a balsa igual berço O balseiro reza o seu terço Na névoa que o descortina Enquanto transborda a retina Do espelho manso das águas Tropeia os sonhos e magoas Rumbeando a pátria Argentina
Solta os cabos da canchada Que o rio desenha o caminho Teu chão é o cedro e o pinho Barganhas pra algum vintém Para os sonhos do Goio em " La plata " em Santo Tomé E para as horas de pouca fé As preces de outro alguém....
E quando as asas da noite Emponcham balsa e barranca Uma nostalgia se abanca Bem junto ao catre vazio E a madrugada no cio Dança com os vultos da mata Enquanto respinga a prata Da lua beijando o rio.
Pras águas mansas tenência Coragem nas corredeiras A embirra ajouja as madeiras E aperta mais que saudade Mas um balseiro em verdade Que o salto grande golpeia Por certo também maneia O que chamam... felicidade
Rio abaixo gineteando Dois Estados amadrinham São destinos que se alinham Onde o perigo é a labuta Talvez é a lide mais bruta Na hora do tempo feio No estouro desse rodeio Não há mais quem reculuta
Cada curva é conhecida Mas não paira uma certeza Sempre a mercê da destreza Do prático em sua manobra O preço que um erro cobra É um final sem despedida Que adianta faltar a vida Por ter coragem de sobra
Velho ditado oportuno Que o bisavô repetia: Na cancha de Santa Maria Traiçoeira mais que serpente Se não for guapo o vivente A marreta desmancha a balsa Assim como gente falsa Destrói os sonhos da gente
O alvoroço da peonada É balsa que entrou certeira Contos de réis na algibeira Pra agigantar o paysano Há de afogar desenganos No colo das madrugadas Sorvendo ilusões compradas Com sotaque castelhano
Tropeiros de águas passadas Dos tempos de Dom Hilário No mais primitivo cenário Ofício dos mais valentes Renomados ou indigentes A mesma fração de glória Que no esteio da história Lançaram nossas sementes
Quisera eu ter a coragem Que tivestes nessa lida E tocar a balsa da vida De forma sensata e mansa Carga " buena" de esperança Por esse rio da existência E por uma fresta da ciência Voltar ao porto... criança