Alma em Verso
Poesia

Temporal – João Antônio Lima da Rosa

João Antonio Lima da Rosa (Toninho Lima)

I Festival Querência Amada - RolantePublicado em

De pronto escureceu Naquela tarde de maio Muitas trovoadas, relâmpagos... E ao longe caíam raios, Lá pras bandas da tafona Armava-se um temporal O vento soprava forte Sacudindo o capinzal.

Os animais se abrigavam Debaixo do arvoredo Berravam mostrando medo Naquele final de dia Vacas chamando as crias E terneiros alvoroçados Corriam pra todo o lado Pra fugir da ventania.

Pássaros em revoadas Pousavam nas taquareiras Bem-te-vis e sabiás Nos galhos da pitangueira A cachorrada da estância Bem na frente do galpão Latia em algazarra Para chamar atenção.

De repente silenciou...

E o aguaceiro caiu Encharcando o terreiro Transformando tudo em rio, O petiço piqueteiro Relinchava assustado Já estava todo molhado Troteando ao redor da casa E o galo batendo as asas Cantava lá no poleiro.

Como é brabo um temporal Desaguando ventanias As noites ficam mais frias Ouvindo o vento gemer Pelas quinchas do ranchito. E para um taura solito Um triste desassossego Deita-se sobre os pelegos E sonha com outros tempos Nos campos do pensamento Sente o calor do aconchego A chuva chora nos beirais do rancho E o coração chora cá no peito Desconsola-se tão sem jeito Lembrando o sorriso da bela Que sempre lhe sorria da janela Com jeitinho tão encantador E um temporal de saudade Deságua sem piedade Nos olhos desse cantor... No desenlace de um amor Que fez do sonho... Tempestade!

Gemendo a velha figueira Sendo ferida e açoitada Na gélida madrugada Ferindo troncos e braços Eu também já em pedaços Abraço a minha guitarra Que com sua alma de cigarra Fica chorando em meus braços. Melodiando em descompasso O coração que dispara...

Dispara na ventania Como querendo encontrar Um porto para ancorar O seu barco todo partido Seus sonhos esmaecidos Sente perder-se a ternura Dos poemas onde a doçura Que lhe ficava perfumando Os dedos que rabiscando vencia o tempo e a lonjura!

Nas madrugadas escuras De aguaceiro brutal Que amassava o capinzal A roseira na varanda soluçava O vento que a despetalava E minha alma se esvaia Buscando os olhos do dia Pra ter do sol um alento As frias noites de vento... Só vem trazer agonia!

Encolho-me mais no meu catre Enrolado no meu poncho Um foguito aquece o rancho Eu me perco devaneando Sinto pranto gotejando Pelas ladeiras do rosto É, tudo já perdeu o gosto Depois que ela foi embora A chuva chora lá fora Como a entender meu desgosto!

Nem o mate me consola Nas noites de temporais A solidão cresce mais Arromba janela e porta Eu rabisco rimas tortas Quero entender o motivo De ser meu peito cativo De uns olhos cheios de amor, Por ela eu me fiz cantor Por esse amor ainda vivo!

Que os temporais me devastem! Levem tudo que sobrou O que já fui o que sou Tão pouco tenho a guardar! Se ela já não vai voltar Sempre haverá temporais Num desabrigo sem cais Tempestade tem segredos A vida foge entre os dedos Sou apenas um barquinho de papel Solito derivando a lo léu Entre asas, ondas e rochedos...