Alma em Verso
Poesia

Lidas Campeiras

Telmo de Lima Freitas

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Antes de romper a aurora, Enveredei pro sogueiro; Meti o buçal num oveiro, Pra repontar a cavalhada, Enquanto o resto da indiada, No seu ritual primitivo, Tomava um para o estrivo, Em riba da carne assada.

Abri o peito de vereda, E um quero-quero alarmento, Pressentindo o movimento, Contraponteava o meu grito. Já não me senti solito, Quebrando aquela geada, E a lua, meio embaciada, Me acompanhava ao tranquito.

Um tostado retouçava Na frente da cavalhada, Vim fazendo a volteada Entre gritos e assobio. O minuano bravio Guasqueava sobre meu peito, Mangueei com paciência e jeito, Pra não fazer extravio.

Um baio contraponteava Com a tordilha gaviona, Mais atrás vinha a Sanfona, Uma zaina aporreada, Mais que depressa a peonada Se esconderam nas tronqueiras, Deixando livre a porteira, Pra não descontá a volteada.

E gritaram: Forma Cavalo! E já estenderam a linha. O capataz já se vinha Na frente da peonada, Distribuir a cavalhada Que fosse mansa de arreio, Porque, depois do rodeio, Tinha fatura marcada.

- Tio Ramão, pegue o Pampa! Deu ordem o capataz. - E o senhor, compadre Brás, Meta o buçal no tostado! Tem o rosilho prateado, Pode pegar, Aparício. Pegue o baio, Remício, Mas tenha muito cuidado!

- Não tem perigo, patrão. Por que não me dá a Sanfona? Quero “amoldar” minha carona No lombo dessa caipora. Resolva e me entregue agora Que tem serviço dobrado, Que vou amaciar seu teclado Co’a roseta da minha espora.

- Vou te fazer a vontade, Quero ver tu ginetear. Depois, não vem te queixar, Se ficar dormindo um sono. Periga até tu ser dono, Se montar de garrão liso, Mas, se cair, já te aviso, Hoje mesmo te “despeono”.

Num upa, pegou do laço, Rasgando a mãe das armadas; Apartou da cavalhada E gritou pro velho Brás: Reponte daí, no más, Que cruze pra qualquer mão, Quero pealar de tirão E oferecer ao capataz.

A zaina cruzou roncando, E o pealo foi de tirão, Nem tinha chegado ao chão, Já recebeu o buçal. E nessa dança brutal Precisa muita tenência E não perder a paciência Para as manhas de um bagual.

Pegou firme e com vontade Na sedeira do buçal, E mesmo que um temporal De vento e chuva guasqueada, A maula, venta rasgada, Pensava no seu bestunto: “Na certa é mais um defunto Pra sepultar na chapada.”

Desde o primeiro corocovo, A grama se distanciava: Velhaquiando, enveredava Rumo ao capão das amoras, A mãezera das caiporas Rebrandeava embodocada, E a soiteira mal sovada Substituía as esporas.

Foi de fato uma peleia Com tanta brutalidade, Que o tio Brás teve vontade De sujeitar a Sanfona. Berrava que nem mamona A recém desterneirada, E o mango dando dentada Pelas abas da carona.

Lá pelas tantas rodou, Escumando pelas ventas. Um índio, quando se aguenta, Sai de cabresto na mão. Terminou-se a tentação Que todo mundo falava, Que ninguém desaporreava A dengosa do patrão.

Endireitou-se a tubuna, Troteando mal enjorcada; Levando ganha a parada, Entregou-se ao campeador. Seja da forma que for, O capataz duvidava, E o homem-peão lhe provava A força de um domador.

Dizer da honra que sente De ser peão entre a peonada, Ginetear por patacoada, Embora alguém não lhe veja, Galgando aquilo que almeja, Sem nunca ser buliçoso, Podendo arrepiar o toso Em qualquer parte que esteja.

E quando batem matraca, Dizendo que ele morreu, Que já desapareceu, Vivendo só num retrato, Chegando a ser abstrato Na ideia de alguns letrados, Deveras fico magoado Na frente de meros boatos.

E vai morrer... mas deste jeito, Honrando a própria cria, Cantando em tom de porfia Os dissabores da vida, Pois traz, em contrapartida, Uma herança galponeira: Pelear por sua bandeira, Embora lhe custe a vida!