Sobre uma Cruz à Beira Estrada
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Não foi de causar espanto, mas de cismar a mirada... Plantada à beira da estrada - alheia à quem te mira; amarrada com embiras, de uma tora falquejada.
De certo nunca te notam os que cruzam à galope, e algum guri que te tope talvez dê volta depressa com medo que apareça o que em tuas sombras se encobre.
Mas eu te vi, cruz de pau, perdida no esquecimento. Procuro teu argumento, adentro tua solidão... Quem foi plantado em teu chão, sem flores nem sacramento?
Talvez um peão campeiro desterrado da Estância, esquecido na distância da ambição dos herdeiros que colheram nos potreiros flores de prata e ganância.
E entre outros despachados, "fraquito" para as esquilas, andou no pobre das vilas resignado e impotente até findar indigente na mortalha das flechilhas.
Talvez seja resultado da rodada de um cavalo que quebrou a mão no valo de uma toca de mulita e deu à querência Bendita mais um taura de regalo!
Um "paysano" sabedor do costeio da potrada, mas por conta da rodada se perdeu no corredor; o "gaucho" era saidor, mas a morte é aporreada!
Quem sabe, seja uma china que reluta em descansar e hoje insiste a assombrar alguém que cruza tiflando? ... Me arrepio imaginando dessa bruxa me enxergar!!!
Por certo, esteja a esperar - nessa constância desdita - um adeus, uma visita, uma lágrima por lembrança, ou a beleza e a fragrância de alguma rosa bonita.
Me entristece em pensar de ser algum combatente que peleou - bravo e valente - nas guerras que generais travaram nas capitais pra chacinar inocentes...
É brabo ver que quem luta - quem ganha a briga de fato - padece no anonimato curando suas quebraduras, ruminando a amargura de ter sangrado um irmão pra morrer na solidão, sem nome na sepultura.
Não sei ao certo o motivo, mas me quedo sensitivo frente essa cruz à beira estrada. Reticente... Nada me diz; mas certamente é um igual pois não somos - afinal - ramos da mesma raiz?!
Portanto, passo um tento nesta crioula filosofia: a vida é uma poesia e a cruz o ponto final. Ali, o rico é igual ao pobre que nada tem; irmanam-se os do bem com os talhados para o mal.
Os que enxergam na "plata" o seu querer mais profundo esquecem que desse mundo não leva qualquer riqueza; os que só vêem beleza encilhados em vaidades, mal sabem que, na verdade, o encanto não é aparência.
Os que vivem trabalhando, obrando de todo braço, nunca acham espaço pra uma prosa com os amigos; barões levam para o jazigo a pompa de seu bom nome, mas igual a terra consome quando a vida se encerra carne e osso em meio à terra, pra um verme matar a fome.
E no fim não sobra nada neste mundo que habitamos; as bondades que semeamos a alma colhe n'outro plano... Eu nunca me engano com cruz de pau ou de ouro; pois é o mesmo paradouro dos caminhos que estradeamos...
Por isso que não consigo compreender tanta ganância, ambição e arrogância por motivos tão banais! Se ao apagar nossa luz, seremos todos iguais na sombra de alguma cruz...