O espantalho
O ESPANTO
Braços abertos, em cruz, Que nem um Cristo Jesus, Perdoando nossos pecados... O espantalho se parece Com gente que o mundo esquece Nalgum rincão do passado.
Qual fantasma na lavoura Sua estampa assustadora Espanta os passarinhos... No espaço vazio dos braços Há um gesto inútil de abraço De alguém que ficou sozinho.
Esboço de ser humano, E um monumento profano Abençoando a plantação... O espantalho, coitado, Lembra alguém crucificado Em sua própria solidão
Na fúria dos temporais, Quando o mar dos milharais Ganha brilho e movimento... Qual maestro maltrapilho Ele rege os pés de milho Com a batuta dos ventos! -A quem o espantalho assusta, Com a sua fama injusta, De feiticeiro pagão? -A quem o espantalho engana, Qual triste figura humana Com palha no coração?
Solitário nas planuras, O espantalho em noite escura Namora estrelas distantes... Esquecido por momentos, Que lhe falta sentimentos Para tê-las como amantes.
E quantas vezes a lua Desejosa de ser sua Veio aninhar-se em seus braços? E ele, incapaz de um carinho, Viu-a seguir seu caminho Sem poder seguir-lhe os passos. Como será não ser nada, Feito uma estátua plantada Sem poder rir, nem chorar? Que pesadelos medonhos Substituem os sonhos Dos que não sabem sonhar?
Vida afora, velho amigo, Eu comparei-me contigo Em momentos de amargura... Sem a paz que tens nos campos E nem luz de pirilampos Para enfeitar-me a figura!
-A quem o espantalho espanta, Com silêncios na garganta E dois botões cegos no olhar? -A quem o espantalho mente, Quando se finge de gente Tentando nos assustar?