Ser um Homem do Campo
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Ser um homem do campo é estar na cidade de terno e gravata e ter a alma debruçada sobre os ombros como um pala de seda retovado por relinchos de potro e avanços de boi. É lembrar e ver na dura curva urbana das esquinas as quinas de rodeio espetadas de aspas que brotam como senhas de dois dedos das cabeças de espumas e mugidos em vésperas de tropa.
Ser um homem do campo é dar-se em galhos e ramas no asfalto e ter as raízes de si afundadas na terra onde estão, sob cruzes de ferro e lápides de pedra, os ossos e metais dos bisavós. É tirar do latido das buzinas o alarido dos últimos cachorros que paravam na força dos colmilhos o ímpeto dos touros cupinudos. É saber escutar, a fímbria dos esgotos e sarjetas das cidadelas fabris dos bairros sujos, a cantiga de água limpa dos arroios onde um menino ficou pescando sóis.
Ah, ser um homem do campo é saber recolher os recuerdos como peixes de sombras que se fisguem no algodão de uma linha sem anzóis — essa que parte dos olhos de vigia para dar respostas de tempo ao coração!
Ser um homem do campo é matear sem a cuia, aparelhar uma palha sem a faca e esmoer o fumo-em-rama sem as mãos. E, ainda assim, chimarrear pelo gris das madrugadas, compassando a liturgia das mateadas com nimbos de um palheiro de patrão.
Ah, ser um homem do campo é sacar-se dos súbitos sapatos para calçar duas botas esfoladas no ferro dos estribos que morreram. Ser um homem do campo é toldar um gateado que relincha na estampa da parede e saber conduzi-lo à mão de moça ao magro andarível que baliza a chegada nas mais duras paradas de uma cancha!
Ah, ser um homem do campo é estar sem ficar, ficando apenas pela humana contingência da matéria que, se aprisiona os pés, não encarcera o espírito que voa como um dardo à procura dos alvos de memória.
Ah, ser um homem do campo é ser dual (oriente e ocidente) e por isso maior que um homem só. Um, o que fabrica a vida nos horários, outro, o que monta redomões de invento que empurram queixos pelas ventanias. O primeiro é um cipreste em campo-santo; o seu irmão de figura é um raio guaxo!
Duplos e unos, verso e reverso de medalha antiga. Um lado — a madeira sonora das guitarras; o outro, a carne gêmea, a música de andar que há nas cantigas ...
Ser um homem do campo — ah, ser um homem do campo! — é estar sempre de volta e sempre de viagem, incontingente de horários e de malas, sem timbres no bilhete de passagem. É estar sem estar e voltar sem ter ido e, sem se haver perdido, encontrar-se no cristal de um espelho, repartido.