Romance de quem Moldou a Querência
A linha tênue que aparta A razão de homem campeiro Das raias do desvario Não suportou a injustiça E arrebentou no limite Da sentença feito espada, A transpassar peito e alma golpeando os sonhos do João
Capataz da estância velha, Perdeu a noção dos anos Que deixou de ser posteiro Pra se tomar capataz; Nasceu e cresceu na estância, Conhecia como poucos Cada palmo, cada canto, Cada pasto, cada aguada, Cada árvore plantada Ou nativa do lugar
Fez de seu posto seu mundo, Ergueu rancho, fez morada, “Embuçalou” a trigueira Mais bonita das percantas, Que ao raio de algumas léguas Poder se ia encontrar
Sonhou nas noites compridas Que a força daqueles braços, Curtidos por tironaços, Um dia, talvez distante, Lhe dariam, por regalo, Um rancho pra ser só seu Frente quinchada pra o Norte Com pé direito bem alto, Varanda no comprimento, Terreiro largo pros piás; Um pedacito de campo Pois não carecia tanto, Apenas o necessário Pra alguma nesga de vida Que haveria de sobrar
Os piás iriam pra o povo -É preciso ter escola – E algum dia, sem retovo, Quem sabe vestir estola... Se perdia nos seus sonhos Construindo fantasias, Sabia de um outro mundo Muito além das cercanias
De posteiro à capataz, Foi o tempo do patrão Reconhecer o talento E a honestidade do joão
Tostou a cara nas lidas E entordilhou as melenas, Dependurou as chilenas Pois garrou pena dos bichos, Coração de pedra bruta Aos poucos amolecendo Ao ver os netos crescendo Pelas estâncias vizinhas, Porque os filhos que ele tinha Herdaram sorte de peão, E nesse mundo campeiro Muito bem ele sabia, Quando acaba a serventia A vida dá seu tirão
A sentença proferida Naquela tarde cinzenta, Desabou como tormenta Sobre um castelo de areia, E o mar revolto por dentro Inundou todo seu mundo, Dos olhos, duas vertentes Deram vazão pra uma enchente Que se formou num segundo
“Preciso que desocupes de vez O rancho onde moras Pois deverás ir embora Porque hoje os tempos mudaram Vou trazer gente estudada Pra ocupar o teu lugar; Como estás velho, João Tens pouca vitalidade Quem sabe lá na cidade Vais viver melhor, então”.
Quedou-se mudo e os olhos Ficaram mirando a esmo Como a campear por si mesmo Nos ermos da velha estância, A vida perde a importância Quando a injustiça mesquinha Por madrasta e por daninha Rouba os sonhos e a esperança No outro dia, cedito Um carro de bois seguia Rumo à estrada real; Levava um João já sem vida, Uma história resumida No humilde do funeral...
...E à noite, passando em frente De um potreirito de pedras Onde medram toscas cruzes, Apeio e saco o sombreiro Pedindo a Deus que aos campeiros Olhe sempre com clemência, Pois somente a Onipotência De um Deus que a tudo criou Saberá dar o valor A quem moldou a querência
Quando recolho minhas vistas Pra contemplar a cidade, Me dói a realidade Dos arrabaldes povoeiros, Hoje há tantos João campeiros Que, posteiros ou capataz, Deixaram a vida pra traz E se embretaram nas Vilas; Das changas, míseros pilas E do campo ... um nunca mais!!!