Dos Memoriais de uma Porteira Aberta
Escancarou-se a porteira dos campos de minha infância para que a tropa judiada buscasse novo horizonte, novos rumos, nova aguada. Talvez um novo destino nos alolargos da estrada.
Os campos da minha infância, tinham casa de madeira, no vértice da cumeeira a hélice giradeira dos cata-ventos de pau, nos galpões, todo o aconchego, onde as camas de pelego se estendiam no girau.
Os “guarda-fogo” cruzavam compridas noites de inverno, bastava atiçar-lhe o cerno para que as brasas vermelhas soltassem miles centelhas que, como sonhos dourados subiam rumo ao infinito, e se apagavam no ar.
O fogo-de-chão campeiro era o altar primitivo para a comunhão dos mates, para as conversas das domas, das reculutas dos causos, das tertúlias, do improviso, das lendas e patacuadas, e entre prosas e anedotas, se encompridavam lorotas no cruzar da madrugada.
Nas águas claras das sangas tão puras, tão cristalinas, a inocência das meninas, se banhava na ilusão de um dia ir prá cidade, porque, decerto, o estudo, o luxo, o falar bonito, aquilo sim, deveria trazer-lhes felicidade.
Que pena! As sangas mansas sabiam, mas não falavam, e apenas acalentavam os sonhos de vaidade.
Chegou tão cedo o progresso nos campos da minha infância, no barulhento motor do trator e moto-serra a declaração de guerra tirando a paz dos campeiros, arados rasgando o ventre sagrado do campo virgem, transformando na vertigem a paisagem dos potreiros.
O espaço livre dos potros virou piquete apertado, fez-se mangueiras, e o gado foi preso em confinamento, as fronteiras que se abriram trazendo a evolução geraram poluição, causando envenenamento.
O peão de lida bruta do serviço mais pesado, mais rude, menos letrado, sem profissão definida, dói-se esgotando o ofício e se mermando o serviço, foi encurtando a comida.
Viver de changas escassas, sem direitos, nem salários, engordar latifundiários e contentar-se co’as sobras, não é das estirpe campeira, mesmo que às vezes se queira evitar outras peleias, o sangue ferve nas veias escancarando a porteira.
E o mato-burro da estância viu passar tropa de gentes, no sofrimento, silentes, já quase sem esperanças buscando, rumo do povo, searas de um tempo novo, futuro para as crianças.
O campo foi testemunha da saga dos infelizes, quantas marcas, cicatrizes, nesse trajeto de horrores, sentindo o cheiro das flores, mas ferindo-se aos espinhos, plantando cruz nos caminhos ao longo dos corredores.
Enfim, a cidade grande e os cinturões de pobreza, onde a miséria e a tristeza povoam o rancherio, e em quantas noites de frio, sem bichará, sem braseiro, chora a saudade, o campeiro, do rancho de onde partiu.
E ao lento passar das horas dos dias, meses e anos, a chaga dos desenganos se aprofundando no peito, a cria nasce sofrida e cresce, às vezes, perdida com a marca do preconceito.
A armadilha luminosa na ribalta da cidade, por traz da luz que irradia oculta estranha magia do submundo povoeiro, na mesa que se oferece para brindar comunhão, em lugar de vinho e pão, o banquete da ilusão é de dor e pesadelo.
E ao me dar conta, afinal, que a porteira escancarada fez um vazio na invernada dos campos da minha infância, campeei os sonhos perdidos nos escombros das taperas, nos bamburrais, nas tigüeras, na voz do vento, sentida. E nesta estrada esquecida onde os rastros se apagaram, as lembranças que ficaram são meus pedaços de vida.
Então, dos anos já gasto, ergui na ponta do mastro minha última bandeira. Se acaso um dia Deus queira trazer o povo de volta, eu quero fazer a escolta, e na emoção derradeira enquanto a tropa se apruma, hei de fechar, uma a uma, as varas desta porteira!