Vendaval
Quando ele veio pela primeira vez, era somente uma visita estranha, trazendo lá de longe, além-fronteira, o belo som da fala castelhana.
Já na segunda vez –amigo do marido- vi brilho de espada nos olhos profundos, senti-me abalada, rubor descabido, trazia ciclone, virava meu mundo.
Minha vida rotineira, tranqüila, sem sobressaltos, virou campo sem porteira, casa tomada de assalto.
e as lidas certas, os meus afazeres, o que era bom, necessário e costumeiro ficou sem graça, difícil, enfadonho: a horta, a ordenha, a lida no terreiro.
E ele passou a chegar mais amiúde os olhos mais ousados cada dia, um braço que roçava no meu braço: prazer de brisa, efeito ventania.
A cabeça me manda ser sensata, o coração não ouve, enlouquecido. Inquietude incessante me arrebata, grita em mim o desejo proibido.
Ah, já me sinto dominada pelo tirano, que me atiça, me puxa, me rodeia. Sim, avança qual potro aos corcoveios, libera seus instintos sem maneiras.
O destino, a gente sabe, faz os arranjos que quer. Juntou palha, trouxe lenha, reacendeu a mulher.
Beijos roubados, muy locos, afagos de brisa e mar. Como mostrar resistência? Como, sem forças, lutar?
E os corpos, desgovernados, explodem em comunhão! Ah, andei no céu, criei asas, fui parte da criação!
Mas, ah, foi fugaz meu destino, o marido apareceu. voltou antes do previsto. Todo o céu escureceu.
Dois titãs se defrontando, feras em luta mortal. uma fêmea ansandecida, uma aventura fatal.
Suspensa como num transe, no retinir das adagas, fiquei muda desfalecida, a alma se abrindo em chagas.
não sei quem caiu primeiro, nem qual foi o mais valente. Fiquei eu como um fantasma, um corpo semivivente.
E hoje, velha, estropiada, abandonada no asilo, carrego o peso da culpa, o sem-fim do meu martírio.
Quando me olham e escutam a história de minha vida, zombam de mim, acham graça, me chamam doida varrida.
Melhor mesmo que não criem, melhor o riso de escárnio que o grito de acusação. Melhor eu mesma, sozinha, levar meu triste pecado, meu puaço de aguilhão.
Mas quero dizer-vos algo, mesmo pedindo perdão: que atire a primeira pedra quem nunca sonhou um dia com a ruptura, com a quebra da aparente harmonia de uma vida sempre igual, sem ciclone que devaste, sem paixão que nos arraste pro meio do vendaval.