Romance dos dois Irmãos
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Um era pardo, tostado, Pelo sol de muitas lides. Mui aragano de jeito... Alto, troncudo e altivo. Dava a impressão que trazia Correndo num sangue fino, A raça, bravura e tino, Da mais caudilha das crias!
O outro um pouco mais claro De porte mais refinado. Olhar baixo desconfiado Como gringo rezador. Embora sendo mais novo E por isso mais mimado, Trazia algo estampado Denunciando das estranhas Que o índio não era “flor”!
Manuel era o mais velho, O mais moço Antonio João, Dois torenas dois irmãos Eram o regalo da casa!
Da varanda do galpão, Um taura cabeça branca Carcomido da velhice, Observava em silêncio O verde do descampado...
Que lhe importava se agora Já não pudesse montar Ou dar um tiro de laço?
- Que lhe importava se o braço Já não pudesse suster O peso do ferro branco? Se via na sua frente Varões de estirpe valente... Produtos de um sangue bravo Que ele em tempos passados Tanto honrara nas peleias!
Desde os trançados de cordas Feito em sombras de ramadas, Até as lides mais pesadas Castra – doma - marcação, Se criaram os dois irmãos Como los hombres se criam: - Na liberdade dos campos E na calma das restingas; Trazendo presa no olhar Aquela rudeza franca Simbolizando o estoicismo Dos cueras de antigamente!
Porém, um dia, no pampa... Ouviu-se um clarim de guerra Como um chamado distante Na voz de um touro que berra!
Das casas grandes de estância Até os ranchos de posteiros - Grande alarido formou-se!
Diziam que os castelhanos Tinham bandeado a fronteira Assim no mais... de repente! Querendo riscar a cascos O chão bendito do Pago, A honra de nossa gente!
Indiada nova e velhos tarimbeiros Limparam as armas e arrumavam os trapos! Tinham no peito aquele fogo ardente De cruzar o ferro respondendo a afronta... De uma trégua futura de paz ao Rio Grande!
Coluna de bravos - de nobres guerreiros! Guerreiros do Pago, do Sol, do relento, Que no altar da consciência do “São Patriotismo” Que forja esta raça de puro atavismo, Exaltavam a coragem aos tapas do vento!
E bem na frente...como de vaqueanos, E bem montados - pelo que se via Os dois torenas bombeavam em silêncio... Num silêncio triste num olhar pesado Pra casa distante... E ìam lembrando os tempos de infância... Os dois sempre juntos - nas horas alegres Os dois sempre juntos - na hora mais triste... -o choro da velha - o abraço do Pai!
Ah...estância tão triste... Estância que era a hospitalidade! O minuano tropeiro de relho molhado E de frias lembranças, Passava assobiando tocando por diante Com sopros uivantes...a outrora alegria... E deu moradia - pra “dona saudade”!
E um dia afinal, como encontro marcado Se toparam no mais...e formou-se o entreveiro. - Foi o “Passo do Rosário”! -
A terra tremeu sob os cascos dos fletes Que se misturavam com corpos caídos, Com gritos de cargas, lamentos, gemidos, Num quadro de morte que impunha pavor!
Um fogo alastrou-se envolvendo a contenda, E línguas de chamas lambiam a relva De sangue encharcada! O chefe dos nossos? _- gaúcho não era! Sem fibra de herói e aviltado pavena, - o tal “Barcelona” ...Ordenou retirada! Então já era noite. A lua escondeu-se Por trás de uma nuvem, magoada de dor! Só o vulto de um taura se viu na coxilha; E o fogo que ardia levantando clarão, Mostrou-lhe a agonia na face do irmão!
Uma mancha escarlate - no rancho do lenço E muita estocada - num pala cinzento, Antônio morreu - sem dar um lamento... Ao lado do pingo - de quarto quebrado!
Como que por encanto o fogo apagou-se E o silêncio invadiu o local da batalha. O luto da noite estendeu a mortalha Nos corpos tombados!
O taura montou co’a mente aturdida... Povoada de ódio, de raiva incontida! E cravando as chilenas - arrancou para a frente... A galope sem rumo, vagando demente Com a alma em frangalhos e co’olhar deprimido! Pra ele aporreado, altivo e valente, A essência da vida perdera o sentido!
Andou muitas horas por grotas e vaus, Cruzando coxilhas, varando alambrados...
Num misto de sangue, de luz, e calor, Um raio soberbo de sol da manhã Bateu-lhe na anca do pingo suado!
Parou de repente...e então divisou: Não longe dali, em descanço, acampada, Pachorrenta e manhosa... A castelhanada num toldo roubado!
Com parla e mate correndo, Rodeados num fogo contavam façanhas. Foi tarde demais quando ouviram o tropel, De um flete suado do taura da estância!
Manuel que chegara no meio da turba Cortando de adaga a prosa e a calma!
Os corpos caíam pesados no chão Até que o cansaço venceu-lhe afinal! Abriram-lhe o peito num golpe profundo Num corte fatal!
Receosos, pasmados, Ajenos guerreiros rodearam-lhe o corpo Que rígido, morto, Ainda impunha respeito!
Olharam agourados pra um rastro de sangue... Protesto solene de um filho da Terra Na hora final.
Sem fala, sem gestos, montaram e partiram Rumbiando em silêncio pra Banda Oriental.
O campo que viu os dois tauras crescerem, Depois batizou-lhes: - Um por amor...tombou na defesa; - O outro por taura...morreu na vingança!