Alma em Verso
Poesia

Romance do Laçador

Marco Póllo Giordani

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Ora veja... Num repente Como capricha o destino. Deram nuns brejos de mato Onde a boiada amoitava Nas horas bradas de sol.

Houve um berro e um estalo Na ânsia do pega pega...

Joca Ruivo viu - num alce Quando se abriu a macega Formando um quadro medonho Onde o bizarro campeiro Parecia miniatura Diante da pavorosa estatura De um touro brabo escarvando!

E o ruivo – calmo – sem medo De laço pronto – um brinquedo Aquilo lê parecia Ajeitando a montaria Para melhor posição!

Quem diria – aquela calma Em tão feia situação!

Arranca o touro – la fresca O laço voou num prisco. E a argola tirou corisco Nas aspas do boi pastoril !

E ai que foi um pavor!

O bicho voltou num upa Tracando os chifres de ponta Nos encontros do cavalo.

Houve um relincho – e um pialo E o Ruivo se foi ao chão! Touro e campeiro se olharam Por um momento apenas!

Bufou a fera... e se veio E o Ruivo – subiu no ar!

A prata das nazarenas, Brilharam de encontro ao sol!

Naquele quadro de morte Nem um grito – nem um ai. Quando um gaúcho se vai, O pampa inteiro estremece!

De bruços na campa enorme Por certo morreu feliz. Pois era o sonho do Joca - Um dia... ser LAÇADOR.

Nascera assim - como nasceram Centenas de desgarrados. Filho de quem? – era um guaxo! Mas isso pouco importava. Total – a vida era aquela Andar de estância em estância A roupa escassa – e a bóia, Por conta de alguma changa. Serviço é o que não faltava!

Era um piá. Mas tinha um sonho Como todos os humanos Suspirava fazendo planos Nesta arte de viver.

Tinha um nome – Joca – o Ruivo - Quem lhe dera? Por certo fora a Valéria A “sinhá preta Valéria” Em cuja teta mamou!

Por vezes lembranças tinha Do morno daquele leite Florando um branco bonito, Da teta da “Mãe Valéria”.

Já andava falado – o Joca Mas sempre co‘ aquele sonho, Uma mania esquisita. Quem sabe – coisa de herança!

Nos intervalos que tinha Por estâncias onde andava, O Joca Ruivo passava Laçando palanque a esmo, Com aquela corda de crina Que em largas noites trançara.

E o sonho do Joca – era Um dia pialar de cima De algum redomão nervoso, Unindo doma e destreza!

Que coisa braba pobreza! E o flete? – como teria? Os aperos... tudo o mais?

E o Ruivo fazia planos No mar pairado do campo A sombra dos pajonais!

De quando em vez – a cordinha Bailava a armada bem feita Pra se fechar retinindo Na cabeça dum moirão!

Mas um dia... e era corrido Aqui na estância da várzea Reuniu-se pra marcação .

Chegava de todo lado, Tropeiro - maula e andejo Cada qual com mil façanhas Como um rosário de glórias Em cada volta de tentos!

“Coragem – raça – talento”

Tropita alçada – isso havia! Criada em fundões de campo, Em brejos nunca batidos!

E o Joca – ficava olhando!

Que coisa linda era aquilo! Bons aperos, bom lombilho E depois... o bate-bate Dos cascos se misturando... A armada em seco – aparando Aspa nova de novilho!

Foi então... sorte? – Qual nada! Logo depois da sesteada Puxando um baio encerado, Gritou pro ruivo um chiru:

Ô guri – pegue meu baio Só cuidado – este lacaio Já muito tombo me deu.

(Vinha rengueando o vivente, pois se rendera num pialo).

-Os Olhos do Joça Ruivo Quase beirando a loucura, Se dilataram na cara Fazendo dois patacões!

E o peito lhe parecia Numa louca disparada, Tropa sem rumo - assustada, No brete do coração!

O Joca tinha bandiado Pro outro lado da emoção!

Chegou-se devagarito Naquele jeito esquisito De meio piá – meio homem.

Houve um grito da pionada: - Monta guri – já são horas!

- E o rengo disse pro Ruivo, Espera... leve as esporas.

O pé do Joca brilhou Na prata das nazarenas!