RESTOS DE ACAMPAMENTO
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Acordei de relancina co’as batidas do martelo me acarcando o pensamento, olhei na volta do rancho e vi que se terminava uma noite de alvoroço e três semanas de ronda na vida deste posteiro.
A cabeça latejando, a boca, num azedume, e o corpo “véio” coitado sovado de vaneirão. Meu chapéu tava extraviado, as botas, desparceiradas, as pilchas todas molhadas e os pelegos puro barro.
Três ou quatro paleteadas veio abaixo num repente um eito de costaneira da cozinha do piquete, o sol me bateu na fronte e a canha de tresontonte e veio atontar novamente a idéia deste vivente.
Quem antes tirava fotos co’as crianças e c’os turistas hoje desmonta o cenário onde foi protagonista...
Quem ontem empilhava versos nos desafios de trova, hoje empilha costaneiras, telhas de zinco e moirão.
Quem antes só forcejava bailando com as percantas agora é par pro serrote, pé de cabra e alavanca.
No meio dos trens de cama achei uns brincos dourados... A dona, eu tenho certeza, é uma galega ventana vinda de lá do estrangeiro, que se encantou com o meu jeito e andou posando seguido nos pelegos do piquete...
E agora essa tristeza... O cusco que se fartava de picanha e de linguiça hoje recorre os espetos, negaceando abichornado algum naco de costela que restou encarquilhado por entre as felpas graúdas.
Um sabiá provinciano saboeria, caborteiro, um resto de carreteiro numa panela quebrada.
Onde ressonavam coplas de Quevedos e Marencos geme o ronco sincopado dos Agrales e Mercedes.
A fumaça que pairava no perfume dos churrascos enegreceu de repente, rescendendo a óleo diesel.
O parque tá uma ruína, qual lavoura em vendaval, e essa medonha ressaca me anuviando os horizontes... Menos mal que é primavera e o Harmonia rebrota como grama boiadeira em final de seca grande.
E um ano passa ligeiro prá quem assenta tijolo! Vou voltar pro meu quartinho na Vila dos Deserdados, vou campear outro serviço de levantar rancho alheio nesta selva de cimento sem quincha pros meus anseios.
Quem sabe algum graudaço que andou pelo acampamento comendo meu carreteiro não me justa de caseiro numa chacrita por perto? Assim poderia, ao menos, tomar um mate a tardinha e me lembrar lá da serra.
Assim poderia, enfim, arrumar um cusquito baio prá me fazer companhia nas horas de solidão, acho até que endireitava, abria as varas do peito e deixava adentrar o rancho alguma prenda mimosa.
E os meus parceiros de truco, será que já se largaram? E o vendedor de cocada? E o afiador de facas? E o Pitoco, e o Beiçudo? ...De vereda me dei conta que se foi mais um setembro na beirada do Guaíba!
Juntei toda a tarecama, as saudades, as lembranças, joguei a trouxa prá riba e embarquei no caminhão. Acabara novamente meu reinado no Harmonia: Acampamento de tauras, na Semana Farroupilha.