O Soneto Pelos Quatro Elementos
I Eu sinto no soneto algo de etéreo, um sopro de magia em movimento... É o ar que se transmuda e faz-se vento varrendo meridianos e hemisférios!
O ar que me sustenta, à revelía da lei da gravidade carcereira, me empresta um par de asas passageiras, que abro pra voar na poesia!
Eu sinto o ar na pele, quando venta e então, misto de brisa e de tormenta, eu fujo sem vontade de voltar...
E, envolto na distancia e no mistério, eu sinto no soneto algo de etéreo... Eu sinto que o soneto esta no ar!
II Com as mão escavo a terra e dela brota, a essência do soneto, que dormia com ela a solidão da poesia, perdida numa terra tão remota!
Replanto os seus pendões de encantamento, regando com o olhar emocionado um sonho que restava soterrado num solo de aridez e esquecimento!
Enfim, frente aos meus olhos incontidos, rebrotam as palavras e o sentido, que une, que combina e que se encerra...
E, plano de esperança e de fartura, olhando o horizonte na lonjura, eu vejo que o soneto está na terra!
III A vida é um velho rio em piracema, o olhar é uma vertente que não cansa e irriga este soneto de lembranças na lágrima que cai sobre o poema!
Poema que deságua no oceano, sacia a minha sede, enquanto moço; e, velho, faz exílio dentre o poço que guarda solidões e desenganos...
Chovendo nos quartetos e tercetos, hidrata a tessitura do soneto, lavando as cicatrizes dessas mágoas...
Assim, solidifico e evaporo e, insípido, incolor e inodoro, afirmo que o soneto esta na água!
IV Ateio a chama velha da saudade, macia e elegante como a seda que, em pouco. já se torna labareda e aclara o que carece de verdade!
Acende o meu soneto que era escuro, encontra a rima certa, o termo exato e aquece todo o frio do meu recato pra ter um verso quente, um verso puro!
Do fogo vão surgindo o sol, a lava; e tudo que, horas antes, tiritava faz parte dessa sina e desse jogo...
É, súbito de chamas e alegrias, acendo para sempre a luz do dia e grito que o soneto está no fogo!