Rincão - Por Meu Olhar na Querência – Henrique Fernandes
16º Bivaque da Poesia GaúchaPublicado em
Quando apeia a primavera pintando cores nas ladeiras, perfumando os corredores e aguçando o cio das potras... ...dando ares veraneiros pras luas com brilho vítrio... ...e cancha pro escarceio dos sóis que alongam os dias. Meus olhos...! ...meus olhos garimpam recuerdos não tão doces como o quadro que repinto na paisagem, toda vez que o pé de amora tinge os galhos do seu lenho.
Venho ajojado na ânsia por estes olhos de estância bombeando largo as lonjuras... ...e esta figueira que assombra a sombra doce das casas, abriga as penas e as asas de lampejos potreadores no ermo dos corredores d’onde o olhar pede vaza...
O lombo baio do campo viceja em trigo maduro... ...os aguapés se arregalam no olho d’ água da fonte, e um João de Barro posteiro, se inquilina num pinheiro na boca de um capãozito que lindeira a várzea grande.
Moreja a voz de um cincerro na guela afiada dos ventos... ...e uma matreira lembrança se balança no arame de uma cerca remendada, mal alinhada no trilho, onde as farpas hasteiam cerdas embandeirando caminhos com as crinas de algum tordilho. Pra onde o vento as embala, o pala também avoaça, e farfalha um fleco n’outro como parelha de potro paleteando num laçante uma zebua fumaça.
Peitando o laço da forma la na mangueira de pedra... ...a petiça se perfila no meio da cavalhada e estende o pescoço magro pra um buçalsito de soga... ...o guri chega e embuçala, bem antes da peonada e logo salta de em pelo, pra repontar as tambeiras que amanhecem se apojando na invemada das carqueja. Ai um tinido de esporas timbrando a voz das auroras nos parapeitos de mim... ...e feito látego bem sovado, que junta fácil as argola da sobre chincha da alma, aperto as garra com calma depois do mate cevado, e me enforquilho num verso que cismou em ser milonga e por ser a lua boa farei dele bom cavalo... Foram tantos que dei doma, outros tantos sem final. alguns por mal enfrenados, ou por falta de costeio não achei o lado certo e larguei pro campo aberto antes mesmo do bocal.
E este olhar manhaneiro que enquadra a vida rural em metafóricas rimas, pra os que andam bem montado, banhando e curando o gado, ou mesmo semeando anseios nos ciclos transcendentais... pra colher vagens de ouro no grão das safras fartosas pendoada nos milharais... ...olhar que busca a distância, além da própria coragem mas se amasia enquadrado ao de redor de si mesmo...
...é este olhar de ternura ao ver um potro nascendo e entender cada lambida que a égua mãe vai lambendo, até sentir em seu seio a primeira cabeçada, garantindo enfim a prole que terá o mesmo destino d’outros potros da invernada.
...é este olhar que a saudade transforma o sal das tristezas em sorrisos de doçura... ... se a vida se destempera virando o fio do destino, a chaira da complacência assenta e alinha os passos, para que o corte do aço deixe marcas de candura...
...por este olhar de querência, que refestelo as ausências nas amplitudes terrunhas da mais campeira figura, feições de campo e distancia na temperança absorta dalgum passado remoto que se enquadra nas molduras, e se eternizam na seriedade da face dos bisavós... ...são traços rudes, singelos, que em preto e amarelo trazem um tanto de nós.
É nos mates lenitivos que perenizo a essência. São visões interioranas que toca a alma no fundo, dando tato para os olhos enxergar as “cosas” simples que fragmentam meu mundo... ...o tranco das vacas mansas que marca o trilho no pasto... ...as flores que improvisam formas numa pegada de casco pela leiva levantada da tropa que deixou rastro...
O aroma que dos arreios exalam depois da lida, adentram pelas narinas recompondo nossa essência c’o cheiro das barrigueiras e dos bacheiros suados e, se espalham pelo sangue saciando a alma de campo com este fluido terrunho pra quem traz dentro de si uma querência de patas e um chão de ferro templado.
É este o chão que eu comungo pelos fogões do meu pago... ...é este o chão que eu retrato quando o fiel do rebenque abraça o punho canhoto e eu tombo o chapéu maroto bem tapiadito pra o lado.
É esta sina andarilha de povoar as “encilha” mesmo que o dia clareie num pelo alobunado. -chasqueio a volta das puas confortando as rédeas cruas e dando pouso pras luas na testa dos desbocados-.
...a prosa das caturritas na copa dos taquarais, limitam as nostalgias num improviso ignoto da charla dos animais.. ... mas que a pureza dos olhos presa as retinas do campo, compreende a voz destes tantos por sermos todos iguais
Só quem tem raízes fortes, sabe o valor deste chão... Quem regou o próprio umbigo com a água dos mananciais... ...sabe o valor desta terra... ao qual chamo de rincão.