Reminiscências
Publicado em
Batendo estribo comigo, Pela estrada poeirenta. Vai uma tropa saudosa de recuerdos Que a noite emponcha com manto negro Vai enrodilhando os meus anseios, Abrindo as cancelas do meu ser, Onde armazenei tanto querer... Páginas escritas no caderno da memória, Marcando dia a dia o meu viver.
Mas, como é bom lembrar de tanta coisa Que dentro de nós ainda repousa O sabor doce de um viver outrora, Onde o cantar da cachoeira ainda mora Numa paisagem que meus olhos guardam A aquerela mais bonita que já vi Um velho umbú vencendo os anos, Plantado ali, como uma cruz de ferro, Resistindo às tempestades e desenganos Aos pranchados frios do minuano Deixando em seu tronco tantas cicatrizes És o guardião de uma tapera onde, Em outras eras, fomos tão felizes Ofertando a sombra a quem precisasse Do aconchego, do teu abraço amigo E no portal dos meus olhos, tudo existe ainda Várzeas perfumadas e coxilhas lindas Que serviram de berço, para o meu sonhar.
E o trem que passava nos trilhos distantes Como um vulto negro a cada fim de dia Soltando um apito - pedaços e gritos Que o vento engolia Deixando a fumaça como um lenço turvo Acenando pra mim E lá na estação, entre tantas chegadas E tantas partidas, abraços, adeus As rodas nos trilhos Chorando, gemendo, partindo de novo Mas sempre a esperança voltava... Amanhã!
Quando o sol no horizonte Insistia em ficar mais um pouco Espiando a estação Até ele gostava de ouvir o apito Do trem que partia Então se escondia por detrás do vagão Jogando nos rostos andantes Seus beijos de luz em forma de adeus A lua chegava... o pampa dormia Nos pelegos prateados que ela estendia No dorso verde do pago Numa cantiga de afagos Na sinfonia da brisa.
O tempo deixou de herança Léguas sem fim de lembranças Povoadas por fantasmas tão amados, Um rancho de santa fé Onde as corruíras faziam ninho, Na sombra do oitão, um cusquito amigo E as pescarias, na calmaria do açude Pés descalços, braços nus... a liberdade Beijando a vida nos lábios rosados da manhã Onde a primavera era mais florida, O anil do céu cada vez mais lindo, As pitangueiras vestidas de noivas Recebendo beijos do azul beija flor, Essência pura do amor, Que o sol sorrindo trazia...
Razões tantas para sentir saudades E guardar estas lembranças com ternura Que a natureza majestosa e pura Presenteou-nos com tantas maravilhas E o vento embriagado de perfume De alecrim, de maçanilha Gotas de sereno como pérolas Nas hastes das flexilhas, O apito do trem assutando o quero-quero, O berro do boi, o murmurar da sanga... Ainda sinto o gosto da cereja, de pitanga Na memória da boca, no páramo da saudade Onde revejo ainda, o lenço verde da campina Molhado com lágrimas que a noite chorou silenciosa Esperando o sol para secar-lhe o pranto.
Agora, a estação virou tapera Com trens paralisados em algum canto. Neste descanso, há um cantar tristonho... Esquecidos, já não carregam sonhos E aquele apito já não nos acordam mais Já não vou ao teu encontro, no meu flete de taquaras Querendo um dia montar em pêlo no tempo, Buscar o rumo dos ventos Domando o próprio destino! Eu deixei de ser menino Para galopar a saudade.
O sorriso morre nos lábios Vendo o palco da estação abandonado Em meu olhar o pranto cristalizado Ao disfarçar-se magoado Reflete a dor do abandono. De um pedaço de nós mesmos, nossa história, Que no arquivo da memória Vai ficando assim, amarelado pelo tempo Mas, tão vivo em nossos sentimentos, Que resgatá-los é nosso dever E manter viva a cultura de um povo. Eu, se pudesse, te faria andar de novo Te arrancando detsa letargia, Velho passageiro da alegria Hoje, apenas um trem paralítico Que até o apito emudeceu. Janelas quebradas, bancadas vazias, A força do progresso te venceu! És apenas um quadro pintado de reminiscências Emoldurando a parece do passado, Tudo acabou... virou museu.