Recado para eduardo, no seu tempo
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Isto que lerás, meu afilhado, quando souberes ler e sobretudo entender - E o importante, na verdade, é entender - não chega a ser um poema, me acredites.
Vamos chamá-lo de Recado - Um recado que te deixo neste Natal de 1968 à falta de um presente melhor. Afinal, só pudemos te dar um cavalinho, e um cavalinho de pau é finitamente perecível.
Sua eternidade não irá, talvez, além de uns poucos dias, enquanto este recado, assim o espero, na aparência tão frágil, tão débil no seu todo, talvez seja mais forte, realmente.
Teus pais hão de guardá-lo, como as velhas cartas, as pálidas fotografias do álbum de família.
Sabes, hoje ainda costumamos guardar as velhas coisas - Elas são um pouco de nós, um pouco do muito que morremos cada dia. Amanhã, quando a página patinada dos anos abrir-se para ti como se fora uma estranha flor do tempo plantada na alvorada menina de teus dias, compreenderás a importância das coisas que, aparentemente, são frágeis, e são débeis, e são fracas.
Nesse dia, não lembrarás mais deste natal de hoje. Teu cavalinho de pau já terá ido para o céu azul dos brinquedos perdidos.
Outros natais terão passado por ti e tu por eles. Mas o recado estará intacto na sua mensagem honesta de ternura - Porque será sempre de ternura a mensagem deixada às crianças.
Nesse dia, que não sei quando será, o mundo - Mais então o teu mundo que o nosso de agora - terá decerto outra fisionomia.
Hoje, neste Natal de 1968, o rádio nos traz notícias nervosas de três homens que circunavegam a Lua numa nave espacial.
Talvez rias então deste momento, deste agora que vivemos, deste presente que para ti será um capítulo encerrado na pré-história da navegação espacial. É possível que nesse dia, precisamente agora, quando lês este recado que te deixo, a ida à Lua seja apenas um programa da rotina diária, um fim-de-semana pretensioso para quem gosta de emoções mais fortes.
Para nós, a geração adulta deste tempo, ainda é algo de fantástico e grandioso.
Tu serás o homem da eletrônica e da cibernética, dos valores e conquistas científicas levadas ao extremo, tu serás parte de uma dimensão que não é a dimensão de hoje, quando o infinito ainda é infinito e Deus ainda é Deus – vário, mas Deus.
Tu serás o homem de um mundo novo em seus valores. Teus filhos não receberão como tu, neste Natal, um cavalinho de pau para tropéis de sonho pelo pátio. Teus filhos montarão em cavalos eletrônicos, Atômicos,Supersônicos, Enquanto nós, os madurões, os olharemos atônitos em suas máquinas de brinquedo pelo espaço. Tu serás o homem de amanhã, o que nasceu na Era Industrial para viver as emoções de outros tempos, a que chamarão de Era Atômica, Era da Cibernética, ou seja lá o nome que lhe derem.
Tu és o futuro que se cria para a fome do tempo.
Mas, meu afilhado Eduardo, cidadão brasileiro de dois anos, há valores que subsistem eternos além dos limites de todas as conquistas. São coisas simples que começaram com o mundo, quando o primeiro homem e a primeira mulher se encontraram sozinhos no alvorecer do tempo.
Coisas como o AMOR - E eu não tenho vergonha de escrevê-lo com maiúsculas porque o entendo maravilhoso, embora simples.
Coisas como a AMIZADE - E eu não tenho vergonha de escrevê-la com maiúsculas porque a entendo fundamental, embora simples.
Coisas como a POESIA - E eu não tenho vergonha de escrevê-la com maiúsculas porque a entendo necessária, embora simples.
Talvez que no teu tempo, meu guri de dois anos, a ciência tenha alcançado condições de criar a Vida numa redoma de laboratório.
Mas jamais esse ser - Seja ele o que for, monstro ou não-mostro - Terá a perfeição do que nasceu de um simples ato de ternura celebrado em comum pela mulher e o homem; Do que nasceu do amor e que por isso mesmo nasceu do sangue, e da dor, e da angústia e do medo, do que nasceu para a esperança – da esperança.
Talvez que no teu tempo, meu guri de dois anos, as nações tenham se armado tanto e tenham tantas bombas, Superbombas, Hiperbombas, Laserbombas, Que tenha alcançado, pelo medo comum, o equilíbrio comum para a paz entre os povos. Mas jamais essa paz - Que repousa na mentira das forças domadas pela ciência - terá a perfeição da paz que se alicerça na amizade.
Dessa amizade, digamos, que une teu pai a teu padrinho, que para seu equilíbrio dispões apenas de uma “bomba”: A do chimarrão sorvido a longos tragos - Herança que recebemos e levamos.
Talvez que no seu tempo, meu guri de dois anos, computadores eletrônicos, a um simples manejo de botões, escrevam os mais belos poemas do universo, poemas que façam corar em seus túmulos a um Homero, a um Dante, a um Drummond de Andrade, um Neruda, um Fernando Pessoa.
Mas jamais esse poema transistorizado, esse poema elucubrado no misterioso caminho dos fios e reatores, terá a perfeição imperfeita do que foi sofrido, rasgado, reescrito no silêncio das tardes e das noites; Do que surgiu do coração para o papel num ato de absoluta criação humana. Do poema que tem cheiro de suor, gosto de sangue, gritos e risos, lágrima e ternura, do poema que está para o poeta como um filho está para o pai...
Este é o recado que te quero dar - O recado do meu tempo para o teu Amanhã.
E não te enganes: As coisas simples são as mais difíceis para os homens que esqueceram de ser simples por injunções da técnica e da ciência.
Será preciso, meu afilhado Eduardo de dois anos, que saibas olhar para um crepúsculo no campo e compreender que não foram os homens que o pintaram.
Que saibas escutar o marulho de um arroio sobre as pedras e lembrar que não foram os homens que o ensinaram a cantar.
Que saibas olhar uma flor que desabrocha e entender que não foram os homens que a fizeram linda.
Que saibas fitar a luz de uma estrela no infinito e saber que não foram os homens que a puseram no céu.
Que saibas apreciar o gosto fundo da ternura e recordar que não foram os homens que a criaram.
Que saibas olhar a beleza da mulher e aceitar que não foram os laboratórios que a fizeram bela.
É preciso, Eduardo, é preciso urgentemente, que te capacites que o homem que faz a máquina jamais fez uma flor; Que o homem é bom, malgrado o próprio homem, e que no íntimo de si é simples como as águas; E que apesar das bombas, Superbombas, Hiperbombas, as flores nascem a cada novo dia e a vida é nova a cada amanhecer.