Alma em Verso
Poesia

QUANDO OS VERSOS NASCEM LIVRES

Sebastião Teixeira Corrêa

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Senhores, peço licença; Pedir licença é preciso... Espero, eu seja conciso, Ao fazer este relato, Escrevendo cada fato, Com a necessária prudência, Ouvindo a voz da consciência E o apelo do coração, Juntando sonho e razão, Num gesto de irreverência!

Sou cidadão do Rio Grande, Gaúcho, por conseguinte; Não tenho nem um requinte, Cepa rude sem falquejo, Talvez me falte o traquejo, Para entender outra forma... Tenho a verdade por norma, A justiça como Norte, E uma opinião que é tão forte. Que nem o tempo a transforma.

Andei vivendo um “bocado” Nos corredores do mundo, E vi um abismo profundo Separando a humanidade, Onde viceja a vaidade, O egoísmo e a ganância, Desde a cidade até a estância Ouço clamores, gemidos, Que jamais foram ouvidos E nem lhes dado importância.

Há uma “casta superior” Dominando a sociedade E às raias da crueldade Mata em nome do progresso, Como se o grande sucesso Do homem neste planeta, Fosse uma vida em proveta, Ou a mudança de um gen: Esquecendo-se, porém, Que nem a melhor clonagem Pode dar alma a uma imagem E há um Deus, olhando do além. A conivência é tão grande, Pois “lobo não come lobo”; E o povo passa por bobo, Cada vez mais atrasado, Põe na mão do deputado Seu futuro como gente; E hoje há um delinqüente, Que se elege traficando, Garantindo e comandando As rotas de intorpescentes.

A justiça... Que justiça??? Calcada em altos salários Cada vez mais mercenários; Ao rol das morosidades, Fazem arbitrariedades, Protegendo as suas greis, Utilizam-se das leis Para o seu próprio proveito, E aos princípios do direito Dão “meia dúzia por seis”

Pra um peão de pouco estudo Que conta á estrada por légua, Não dá pra entender, chô égua! “Tanta terra e pouco dono” Quando, às vezes perco o sono, Fico dos mais revoltados, Há tantos campos povoados, Latifúndios, sesmarias... E há eternas romarias No corredor de acampados.

É triste ver um campeiro Dizer adeus à invernada; A porteira escancarada Marca o destino do qüera, Que deixa o rancho tapera Pra buscar novo horizonte, E quantos que, no reponte, Das ilusões mais fagueiras, Só encontrarão por cumeeira A quincha fria da ponte.

Cansei de cruzar os braços Á injustiça que campeia, Que embuçala e que maneia O povo humilde, sofrido, Pisoteado e oprimido, Excluído e renegado, Enquanto os chefes de estado Gozam de vis mordomias, E deleitam-se em orgias De um mundo globalizado.

A mídia pinta a desgraça Na tela da insensatez! E sempre “a bola da vez” Ta na mão de quem domina; Há uma ave de rapina Pousada em cada alambrado, Com o bico bem afiado E as garras sempre apontadas Pra onde dormem as ninhadas Do rebanho desgarrado.

Os bandidos de gravata, Travestidos de cordeiro, Fazem rebanhos inteiros Refém da corrupção, Quando alcançam uma mão Exigem pernas e braços; Se alavancam nos fracassos, Sobem nos ombros alheios, E em vez de sal nos rodeios, Só distribuem bagaços.

As religiões se confundem, Cada qual quer ter mais dotes; Pastores e sacerdotes Levam vida de burguês, Temdo o povo por freguês, É fácil juntar riquezas, Utilizando espertezas Para venderem indulgências Enganam com falcas crenças E um monte de sutilezas.

Queria que Jesus Cristo Voltasse assim, de repente, Garanto que muita gente Se mandava em disparada, Esses da “cara lavada” Com panca de executivos, Que impõe trabalhos cativos E arvoram-se benfeitores, Explorando trabalhadores São perniciosos, nocivos...

A nossa mãe natureza Cada vez mais agredida: A terra chora a ferida Que o homem faz, diariamente, Ao matar uma nascente Ou poluir mananciais, Herdamos de nossos pais, Um mundo que, ao nosso filho, Não dará o mesmo brilho, E o mesmo encanto, jamais.

Vou encerrando estes versos Isento de pretensão; Sensíveis ao coração, De quem ainda acredita Que a vida é muito bonita, E vale a pena viver, Alguns terão que aprender, Mesmo que seja na dor, Que o verdadeiro valor Está no modo de ser.

Que, a luz de um novo milênio, Cultivemos a bondade, Justiça e fraternidade Defendendo o que é direito, Esquecendo o preconceito, Passamos ser como espelho, E o mais sábio dos conselhos Que ninguém é mais ou menos, E “...Se nos julgamos pequenos”, É porque estamos de joelhos.