Alma em Verso
Poesia

Quando Essa Pandemia Passar – Athos da Cunha

Athos Ronaldo Miralha da Cunha

II Florada de Versos (Virtual) - Blumenau - SCPublicado em

Quando essa pandemia passar eu quero chutar o balde... e o pau da barraca. Quero sentar na rede na varanda enquanto a chuva encharca a imensidão da planura. Não quero me importar se... “o tempo se armou de fato lá pros lados do Uruguai”. Quero dar adeus à clausura No aconchego de um poncho. E rezar uma Ave Maria na sepultura dos que foram antes de nós.

Quando essa pandemia passar quero tomar vinho tinto em Bagé, Ijuí, Santa Maria e em qualquer outro lugar... em qualquer dia, em qualquer tempo, mas que tenha parceria para brindar à vida e distribuir abraços e sorrisos para acalentar a alma. O vinho terá que ser Malbec e argentino... Lá de Mendoza...

Quando essa pandemia passar Quero prosear na mesa de um café Embaixo de um pergolado com os amigos do Pampa e da Fronteira e ver que estamos firmes e fortes. Na pena, no verbo e nos predicados. Quero reler um conto arrebatador. Com os pés na areia no calor das manhãs. Nas tardes eternamente preguiçosas E nas inquietantes noites de lua cheia.

Quando essa pandemia passar... quero acordar numa manhã de sol e ir até a praça Saldanha Marinho – na Santa Maria cheia de graça – comprar pão integral na feirinha. E ficar jogando conversa fora com qualquer gaúcho passante. Saborear mil-folhas na Copacabana¹ , Café e conhaque na Boca Maldita e folhear um livro na Cesma² . Quando essa pandemia passar quero visitar Ramiz Galvão, Rio Pardo e Santiago do Boqueirão. Em Ramiz quero jogar bolitas de gude Na minha infância na rua José Ferrador. E visitar a estação da Viação Férrea! Em Rio Pardo, tomar um banho nos Ingazeiros. E visitar a estação da Viação Férrea! Em Santiago quero caminhar na rua dos poetas. E visitar a estação da Viação Férrea!

Quando essa pandemia passar quero fazer muitas trilhas por esse mundão de Deus: andar por várzeas e coxilhas. conhecer o Rincão do Inferno, caminhar sobre a Garganta do Diabo e voltar nas cascatas do Piruva. E conhecer o Salto do Yucumã. Ah! Quero estar presente várias vezes Nos invernos de São José dos Ausentes.

Quando essa pandemia passar quero fazer o Caminho das Missões e prosear com algum tronco missioneiro. Em São Borja quero recitar Rillo e em São Luiz Gonzaga, Jaime. E na penumbra do candeeiro cantar o “Canto dos livres”. Quero juntar chimangos e maragatos Solidários e sensatos. Em cantorias com notas de Maicá.

Quando essa pandemia passar eu quero gastar alpargatas e teclados. E canetas nos manuscritos. Agradecer por estar no mundo dos vivos. E ser um pouco melhor do que já fui. Só um pouquinho melhor, algo sem efeito porque ninguém é perfeito. Ranzinza e excêntrico. Quem sabe... Afinal de contas... um velhinho não está nem aí para certos adjetivos.

¹ Confeitaria no centro de Santa Maria. ² Cooperativa que comercializa livros.