Quando as Esporas se Calam
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Não se ouviu hoje cedo na mangueira, o arrastar das esporas nem bufos de redomões, um palanque solitário no mais profundo silêncio... braço erguido num adeus... Dom Ricardo já se foi.. .prá matear noutros galpões.
O que se passou ninguém sabe, um domador veterano, calejado pelos anos da lida bruta com potros, se perder numa rodada? Ironia do destino, que dispara em desabrida aquele que domou potros das tropilhas mais “veiacas” perdeu as rédeas da vida no lombo da “colorada”.
Voltou solita a “crioula” com uma rédea atorada e o medo que dona Alzira alimentara tantos anos terminou por ser verdade, viu ao longe o cusco baio parceiro de dom Ricardo, e um corpo, estendido ao chão duro golpe do destino... ...traiçoeiro e redomão.
O tempo que tudo esquece e cura tantas feridas há de tropear alentos pr’aqueles que conviveram com a lendária figura que muitos touros dobrou madrugando primaveras e na arte de amansar feras levou rodadas e pealos, de potros fez bons cavalos... ...por domados, os entregou.
Agora resta o silêncio num rancho pobre da estância não se ouve chiar a cambona prenunciando um mate novo o velho basto e a carona que encilharam tantos xucros hoje encilham um cavalete esquecido, abandonado... ...resta um laço enrodilhado aos pés deste cavalete, muitos potros sem ginete pastando pelos potreiros e um cusco companheiro com o olhar triste na estrada... ... a espera de um amigo.
Meu pensamento vai longe... e vem repassando imagens prá enfrenar esta homenagem a este maestro dos bastos, quero crer que lá no céu se houver mesmo vida eterna ele anda alçando a perna em “muito potro veiaco”.
Sobra um verso aporreado na tropilha das lembranças prá amadrinhar sentimentos... Que vai galopeando ao vento repontando a solidão... ...saudades de quem ficou e um par de esporas caladas estrelas nas madrugadas pelo céu de algum galpão!!!