QUANDO A NOITE TRAZ RAZÕES PRA OS MEUS ANSEIOS
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O inverno chegou mais cedo E a noite cobriu coxilhas com alvo lenços de prata O céu bordado de estrelas Parece estar tiritando no relento do universo; Recolho a alma estradeira para aquecer-se ao borralho, Na intimidade do rancho...
Que bom matear junto ao fogo Nessas noites de invernias, quando a pampa é só silêncio.
Sentir mais perto a presença dos dois parceiros de lida, Com sinas tão parecidas e instintos tão diferentes; Um... apegado ao seu dono por um gesto de amizade, E o outro... por liberdade (Lhe basta andejar somente!)
A “pura” desce da guampa dando “guascaços” na goela, Aquecendo a veia aorta O mate rebate a canha pelo gosto de alguns jujos Despencados da cambona. Retiro o charque do gancho e cheiro a faca, a preceito, Estendo a “manta” e ajeito, pra cortar sobre a carona.
Na imensidão desta noite Repenso a vida, ao mutismo que antecede a madrugada. Há uma tropilha de sonhos que se achega nestas horas Em que penduro as esporas, das lidas e campereadas; São as ânsias chimarronas Que vêm sorver na cambona, esperanças malogradas.
Abro a porteira da mente, povoada de pensamentos. E tantos questionamentos, porém, respostas não acho... Vejo a largueza dos campos e o potencial de fartura.
A febre dos latifúndios trouxe a desgraça ao campeiro, E o peão foi o primeiro a sobrar nesse contexto; A evolução foi pretexto para matar nossa cultura, Lavouras... Monoculturas, foram chegando, a cabresto...
Quando a idéia de progresso, com requintes de utopia, Foi sendo assim propalada na linha dos quatro ventos, Foram surgindo adventos de indústrias e de automação Falou-se em revolução e estipulo-se as cidades, Motivou-se as vaidades à espera do consumismo E a onda de casuísmos avassalou o rincão. Multiplicou-se os luzeiros - armadilhas luminosas- E as promessas enganosas foram chegando aos campeiros: Trabalho de poucas horas, estudo pra gurizada, Garantia de salários; justiça nos honorários e a compra da propriedade, (Entregue, assim, na verdade, aos grandes latifundiários).
Foi tudo muito depressa e o campo ficou vazio, Estendeu-se o rancherio nos arrabaldes povoeiros.
Se falassem, os travesseiros, revelaria nas tristezas, Choradas nas asperezas, pelas noites mal dormidas, Gemendo à dor das feridas abertas nos corações Que foram os cinturões de miséria e de pobreza.
Os becos dão pasto as bocas dos filhos que a rua adota, Formando tropilhas xucras de deserdados sociais, Onde os valores morais esvaem-se das artérias; E a estampa das gentes sérias, não se repetem nas crias Que alimentam fantasias para o desgosto dos pais.
É assim que o taura mais guapo se entrega pra o tinonaço E não agüenta o “puaço” da dura realidade; Ao compreender que a cidade lhes rouba a maior riqueza, Pois na humildade e pobreza que ao campo não contamina, Tinha horizontes por sina e um mundo de liberdade.
Então, ao pé do baralho, junto ao meu cusco e o cavalo, Neste rancho solitário na imensidão da campanha Me sinto privilegiado, porque sou dono de mim.
Nasci pra não ser mandado nem pra viver embretado, Pois me sobram os corredores e o infinito das distâncias, Onde reponto minhas ânsias, numa tropeada sem fim.
Hei de viver andarengo, pra alardear as injustiças E denunciar os algozes que teimam em matar valores, Renegando a nossa história, E ao cumprir a trajetória, formar uma reculuta Pra enfrentar essa luta a onda de estrangeirismo Que solapa o gauchismo, com alienígena conduta.
Vamos lançar nosso brado, fazer dos palcos tribunas; E essas tropilhas reiúnas, de costumes importados , Que vão pra todos Estados reverenciar suas crenças, Porque aqui nesta querência se faz pátria e se faz povo E, se preciso, de novo se proclama a Independência!!!