Alma em Verso
Poesia

Quando a alma entende o verso

Joseti Gomes

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O corpo todo se entrega quando a alma entende o verso...

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Quando a paisagem dos pampas se renova pela chuva, que mata a sede da terra, o poeta, em seus silêncios, ruminando pensamentos, abre as porteiras da alma para ouvir seu coração...

Resgata, das profundezas da mente que dão guarida à loucura, um desejo inquietante de imprimir a inspiração na palidez de um papel. A mão pede cancha nos campos da poesia... No partidor, deixa rastros de versos, parindo recuerdos de quem vive em nostalgia...

Pras rimas baterem asas encontrando a liberdade na carona de algum vento, é preciso o sentimento interpretando estas linhas...

Mas, todo rio encontra o curso se assim estiver escrito... Os versos tão reprimidos empoeirados de ausência, encontram noutras querências alguém buscando motivos pra soltar a sua voz...

Matar a fome de terra... Dar de beber aos olhos, que secavam nas vigílias das tantas noites de espera...

O campeiro agora volta, trazendo nos seus peçuelos um regalo pros anseios de quem nasceu sonhador, onde a nuvem das estradas se faz fiel companheira, daqueles que firmam raízes na ilusão de um corredor...

E a sina dessas palavras encontra o seu destino numa súplica de amor, pra ecoar a mudez da alma na voz do declamador que vem entregar-se ao poema... Pois já viveu de verdade, toda a dor que o poeta, rabiscava solitário, no seu mundo imaginário de ferir-se em solidão ...

O verso, outrora confidente, descansando sobre a mesa, agora, se mostra nas rimas, em cada frase do papel pra quem lê nas entrelinhas, tudo o que foi confiado no pergaminho secreto, que se revela infiel...

Eu também sinto na alma a sede de versejar... Pois me alimento dos causos, das prosas e cantorias que a ciência não explica e nem consegue entender... Pois este grande apego ao telurismo gaúcho que nos inspira pros versos, nos chama à liberdade pelas várzeas destes campos, que amanhecem tropeando, no ronco de cada mate cevado por mãos de lida, perto de um fogo-de-chão ...

Têm a nascente nas rondas, batizadas pelos versos que se imprimem nos telhados, com picumã de um galpão...

A liberdade dos pagos faz companhia pra lua quando despida dos medos, se debruça na janela... Vem trazer inspiração pra quem vive por inteiro, neste cenário campeiro que deixa o olhar desnudo ao revela-se em milonga... Se arrancha de mansito, sem mais de longas se abanca, e toma conta de tudo...

Aqui, estes mesmos tauras, que outrora andavam extraviados, encontram, no seu costado, os motivos pra ficar ... Madrugada, violão e sentimentos, silêncios pros seus lamentos e versos pra declamar...

Me alimento de poesia se digo coisas da alma, e a própria alma se cala e fica olhando pra mim... Refletida em cada verso, que, um dia, eu mesmo quis escrever... Nos timbres, que ela não conhecia, em perfeita harmonia co’as cordas de um violão... Eu deixo de lado a razão, pois o corpo todo se entrega quando a alma entende o verso... Minha voz, é a voz de muitos e, já não pertence a ninguém... Alcança o mundo do poeta, e, no instante em que me calo, me faço poeta, também!