Provincianas
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No horizonte... O dia floresce criança, A magia da luz a cada novo tempo Traz em seu fulgor íntimas lembranças.
Na Bandeira... O tempo redivivo na memória, A procedência das matas, do ouro e do sangue Que as batalhas timbraram a nossa história.
O dia desperta com o relógio do tempo Em verde-mar nas canhadas, Meus olhos cruzam rumos e passado Num voo silencioso pela estrada. Volto no tempo pelas fronteiras da pampa, Quando tratados e cartas de sesmarias Traduziram a história da minha estampa! Trago nas veias, o gen protetor do ser, A miscigenação de raças desta terra. Vim do “clã” de altivas mulheres, Que forjaram os centauros a barro e pedra.
Quando o som vibrante de clarins em marcha E tambores surdos retumbaram pelo chão, Um antigo alforje impregnado de ventos Repontou caudilhos para na lutar na revolução. E assim dotada do espírito provinciano Pela defesa da terra, a mulher gaúcha “...esqueceu delicadezas, ternuras de quase-noiva E atou os cabelos negros debaixo de um chapelão E se atirou no trabalho, cuidando da casa E campo, do gado e da plantação”.¹
Na voz... Trago o timbre clamando por liberdade, O grito charrua que exalta o canto terrunho Que de outros tempos escravizaram a verdade!
Nos olhos... Tenho o matiz da gesta guerreira, Que guardou ranchos, rezou pelos ausentes E se fez senhora nas lidas campeiras.
Sou neste tempo resumo dessas mulheres, A chama crioula pras rondas fogoneiras, A palavra que conforta corpo e alma, O fulgor ancestral da estrela boieira! A água modela a terra por onde vai cruzar, E no seu longo caminho que roda-redondo... Tal como um moinho em aceno e cantar, Vai pelos rumos de nossa querência Imitando a formosa escrita da pena... Que derrama antigos sonhos e destinos, Deixando a alma retovada em poemas.
Teu tempo é quando? Meu tempo é quando? Ver os ancestrais na estrada antes dos passos Cintila nas retinas uma vertente de pranto. Imagens e estórias na moldura de prata Das mulheres que tem na beira das retinas Tempo e silencio vivos num retrato antigo... Dessas - Senhoras de Si – que fizeram o tempo parar “... Que estão ali em preto e branco... ... O mesmo mistério no olhar!”²
No campo... O poente em luz e cor, Se debruça nos escaninhos da memória, No coração da paisagem, na estação em flor.
Pela estrada de manso chega à sombra do dia, A província romanceia o tempo e o vento, Enamorada vislumbro sua geografia!
Vem deitar-se pelo poncho da noite Essas estrelas guerreiras das horas xiruas, Assim, pela madrugada posteira Exalto a história em cada quarto de lua. Ficaram nas estâncias as mulheres em retrato... Na espera da alma farroupilha do seu general. ...Decerto delas herdamos essa força primitiva, Essa fé que nos anima, Que mantém a raça viva, perene através da idade. Da mulher quase cativa nasceu esta gente altiva Que ama tanto a liberdade!³
Volto do passado trazendo no meu íntimo ser A -Estrada Real-, o lume do -Fogo Eterno-, E a -Estrela D´alva- luzindo ao amanhecer. Os de amanhã, ansiosos de passado e futuro Hão de me encontrar no obelisco Vigiando a província num tratado de paz! Timbrada no tempo sou as mulheres da pampa A razão da história que vem no cruzeiro do sul. Altiva, tremulante, lá esta a nossa bandeira Neste tributo as guerreiras do Rio Grande do Sul!
1 – Fragmento do poema: Mulher gaúcha de Antonio Augusto Fagundes 2- Fragmento do poema: Senhoras de si de Julio Cezar Paim 3- Fragmento do poema: Retrato (romance das mulheres dos guerreiros) de Delci Oliveira
Composição poética inspirada em obras que retratam a força da mulher na formação rio-grandense.