Porteira Fechada
Publicado em
Depois que Cyro Martins saiu de Quarai ficou na querência um limite abstrato, a porteira fechada, e n’alma gaúcha o tropel de cavalos batendo tambores, sumindo, sumindo no além dos confins.
Foi Cyro Martins, foi Cyro Martins que viu e mostrou a porteira fechada, chamou os gaúchos e a todos mostrou a porteira fechada, fez ver que a partir da porteira o gaúcho morria, não havia mais nada...
Foi Cyro Martlns que encerrou na memória, nos nervos, no sangue, no cerno dos livros a imagem perfeita dos últimos tauras...
Fechando a porteira encerrou-os no tempo e deixou-lhes apenas o rumo das lendas, a prosa dos causos e a flama dos versos, talvez, de algum poeta...
Eu quero guardar nos ouvidos os últimos ruídos dos últimos tauras passando e sumindo, sumindo tristonhos no além dos confins...
Eu quero o Rio Grande qual dantes já foi! De estâncias imensas na minha memória; de fios de bigode atestando que a história se fez a cavalo e a berros de boi...
Por isso, rebelde, sem rumo e sem tropas, rebelde e descalço, cansado e a pé, eu sigo campeando por várzeas e cerros a limpa coxilha, a verde querência do amor e da fé.
... Até que Aureliano e Nogueira Leiria ao pé de uma estrela eu encontre proseando e a todos que chegam, rebeldes como eu, sem rumo e descalços, cansados e a pé, os dois tranqüilizem, e afirmem que os pagos, a velha querência, o Rio Grande de sempre está dentro de nós e ali ficará.
Porteira fechada — meu pranto sem voz!