Porque Razões Nascem os Versos
Publicado em
As rimas xucras dos versos, se retesam na garganta Quando canta um pajador; E o poema toma forma, quando a expressão da poesia Vibra em igual sintonia, com a alma do criador
Quando o lenho da guitarra se achega ao peito do guasca, E o timbrado das seis cordas Parece brotar das veias, na extremidade dos dedos; Corre um tremor pela espinha e se prolonga nos nervos, Batendo o frio da coragem, sobre a quentura dos medos
Assim nasce cada verso, Quando a sensibilidade aflora nos sentimentos; E a cada gota de rima que o poeta da à luz, Todo verso se traduz na aura desse momento
Por isso, às vezes, a dor que os versos tristes refletem; Ou, sentimentos de amor, que plasmam no coração Quando as paixões nos boleiam. Outras vezes é o protesto, marcado por injustiças, Ou mesmo, histórias sangrentas q uando dois bravos peleiam
Eu já cantei o amor, Quando, na aurora dos anos, senti o gosto dos lábios E o calor terno do corpo da prenda linda e trigueira; Meus versos tinham o frescor da brisa calma da tarde, E o perfume mais suave das flores da pitangueira
E já cantei toda a dor de quem sofre pela ausência, Quando a china bate as asas, deixando o rancho vazio; A solidão toma conta, o inverno desce e se acampa, E o coração sente frio
Cantei a saga campeira Daqueles que desfraldaram a bandeira das batalhas, Pra honrar o solo gaúcho, com fibra, garra e entono; Que do lombo dos cavalos lançaram gritos de guerra Pra mostrar que a nossa terra era pátria e tinha dono!
Cantei o êxodo do campo ao ver vazios na invernada, E a porteira escancarada, por onde as tropas de gente Foram passando, silentes, prá buscar novas searas, Chorando triste aos horrores Ao longo dos corredores, onde a dor se faz presente
Cantei a amarga saudade do campeiro, na cidade, Cevando as ervas caúnas no degredo das favelas, Montando potros de sonhos, lançando armadas já tortas,
Em chifres de rezes mortas, pelos bretes das ruelas
Cantei o triste gemido do campo virgem, rasgado Pela fúria de um arado puxado pelo trator, Dos ervais nobres, nativos, que se tornaram cativos, Morrendo pelas clareiras, Porque nas mãos tarefeiras só há golpes de desamor.
Cantei a paz que existia nos verões e primaveras, Quando o viço nas taperas surgia só com o sereno, A ternura das abelhas buscando o néctar puro, Pra fazer o mel escuro das flores do sarraceno
E ao pé do fogo-de-chão, pelas noites dos Bivaques, Entoei, junto aos que cantam, meus poemas de esperança De que um dia a igualdade e a justiça que queremos, Encontrá-las ainda iremos num sorriso de criança Em Quadras de Sesmarias, cantei o verde dos campos Que sobraram nos porongos quando se seva algum mate,
E as lanças ensarilhadas à espera de outros guapos Com sentimentos Farrapos, pra impeçar novo combate
Campeei rimas de diamante, Pra desafiar a dureza, e escrever sobre a aspereza Do aço da Pedra Moura, meus versos de amor e paz; E hei de compor mil poemas, pra cantar todas minhas penas, Juntando aos versos dos outos, Pois versos são como potros, que não se deixam domar
Se algum dia, um dos meus versos for encontrá-lo, meu parceiro, Te peço que, por primeiro, lhe mostre hospitalidade, Pois cada verso é um pedaço desta emoção que me inspira, E, de diamante ou safira, cada letra e cada verso Tem dimensões de universo, pra rimar com liberdade
Então, parceiro, estas rimas, retesadas na garganta, Hão de ecoar, quando cantas, nos sem-fins dos cafundós, Pra que o xucrismo dos versos despertem nas clarinadas Escramuças de potradas, brotando pátrias em nós!!!