Alma em Verso
Poesia

Por Ter o Campo na Alma

Érico Rodrigo Padilha

Publicado em

Por ter o campo na alma É que nunca fui estrada...

Não vivo de nostalgias, Não sofro de insônias largas, Nem por ânsias de regresso Por ter deixado a querência.

Não quero ser o queixume Que se transforma em poesia, Lembrando tristes andantes Que buscam caminhos vagos Nos corredores do mundo.

Cruzo meu mundo a cavalo, Tenho raízes na pampa, Tenho motivos de sobra E a consciência terrunha, Pra não querer ser distancia, Nem lamentos, nem recuerdos, Por ter deixado o meu pago E o rincão onde nasci.

Tenho lonjuras na alma, E os únicos corredores Que me avistam de cruzada São os corredores da estancia.

Tanto a pé, como á cavalo, Tenho o campo por regalo E o cusco na minha escolta.

Este sim, um companheiro, Sempre fiel e parceiro De pegar em qualquer ponta:

-Pra lidar com a cavalhada, Nos apartes de mangueira, Nas lides em campo aberto, Recorrer várzea e canhada, Ou cruzar de um pago a outro Com a tropa gorda na estrada-

Um gaúcho de á cavalo, Vai muito além da figura Do homem e do animal.

Um gaúcho de á cavalo, É um centauro em campo aberto, É um monarca nas coxilhas, Senhor do tempo e do mundo E a liberdade andarilha Nos manuscritos da alma.

Depois das longas jornadas E das tropeadas compridas, Quando a saudade me bate, Tenho o pingo por regalo, Duas léguas a cavalo E o rincão da minha "flor"...

Faço dos campos meu mundo E da lida meu sustento, Na volta eu encontro alento, Porque a morena me espera, Na entrada da primavera Deve chegar o piazito, Pra iluminar o ranchito Onde vivo ao lado dela.

É lindo voltar ao rancho Pra o mate no fim do dia, A lua cheia, tordilha, A iluminar estes campos, À noite, só os pirilampos, E o som do cantar dos grilos.

Quando anseio por silêncio, Minha vida é meu galpão, Meu mundo entre quatro esteios Cravados firmes no chão.

Pras noites brabas de inverno, Assado gordo nas brasas, Mate bueno e fogo grande Pras horas de solidão.

Pras soalheiras de verão, Tenho o açude das casas, Meia dúzia de braçadas E o meu retorno à infância.

Guri de campo e de sanga, De gastar tardes inteiras Na beirada de um lagoão.

Cresci na volta das casas. Ouvindo causos de campo, Charlando e tomando mate Com a peonada da estancia.

Me criei pelos potreiros Do galpão a casa grande, Lidando em vacas de leite, No ajutório da cozinha. Com lavoura e criação.

Me fiz homem na campanha Tal e qual a tantos outros. Por isso que não entendo, O que leva tanta gente Criada assim como eu. Largar tudo e correr mundo Buscando rumos e anseios Nos alo largos da estrada.

Sempre fui parte do campo Mesmo nunca sendo meu, Quem tem a alma maneada No rincão onde nasceu. Não busca o que não perdeu Por um simples desatino...

Quem traça o próprio destino Com telurismo e consciência. Não abandona a querência Pois tem pátria nas raízes. O amor ao pago onde vive. É a sua maior valia, Quem tem o campo na alma Não vive de nostalgias