Alma em Verso
Poesia

Poema pra o Rincão Pobre – Matheus Costa Borges

Matheus Costa

IV Colheita de Versos Abdon Batista - SCPublicado em

Rincão, caminho de esperas pra'o andante em tempo vago; Com silêncios que embriago o peito, quando tapera. Ranchos com jeito de espera… Almas com cismas e sonhos… Rincão pobre que é tristonho, pois, perdeu-se a como era.

Não mais o choro do arreio cortando as horas da tarde; Sol é brasa que não arde… ...Não se param mais rodeios! Os potreiros estão cheios de saudade e solidão... E o que resta, meu rincão de macega e campo feio?

Partidor de carreirada sem anúncios de "se vieram!" E galpões que já tiveram os murmúrios da peonada. As sangas estão deixadas sem o aroma das pitangas… E o tempo carrega a canga, cada dia, mais pesada!

Alambrados retorcidos pela judiação da idade; Onde o vento tem piedade de poder ser percebido. Rincão pobre, está perdido!... Não dá pouso, nem cruzada… É um poema da invernada que, há muito, já não é lido!

A tua gente - por inteiro - ...mil comadres lavadeiras, esvaziaram as ribeiras dos arroios companheiros. E os incontáveis "domeros" já não são iguais aos outros; Não mais a boca dos potros!... ...Por ora, o culo povoeiro!

As léguas - tua extensão - crioulos traços postados, desde quando desenhados te batizaram "rincão". E agora essa imensidão de longitudes terrenas parece - de tão pequena - caber-me dentro da mão!

Varal de charque olvidado, que trocou o sal de antes pela salgada e constante lágrima dos extraviados. Cinamomos encravados junto à porteiras sem dono, minguando lerdos outonos com anseios desfolhados!

Rincão pobre, que foi rico de bondade e changa justa, te rever hoje me assusta… ...e à pensar - inquieto - fico: Os verões de mês e pico estafaram-te a esperança? Pois, a paz já não alcança a sombra dos teus angicos!

A terra - madrinha santa - de uma inocente maneira ergue a osca polvadeira que me resseca a garganta!... E se rever-te me espanta chego a pensar, num momento, se foi teu merecimento colher o que o homem planta?

Andei de'atrás do progresso, por cristão recorredor; ...E jurei fazer fiador pra's incertezas - confesso - Mas agora não impeço o castigo que te toma; E é tão miúdo o meu diploma pra o perdão que, enfim, te peço!

Ao ver-te assim, esvaído - no destino que carrego - fecho os olhos, quase os cego, mas afloram-me os sentidos!... E um lamento tão comprido traz-me a prova da razão que te fez, pobre rincão, tornar-se quase esquecido!

Mangueirão de tanta história, que na pedra tem segredos ...Me escapa de todos dedos a conta das tuas memórias!... As gauchadas, as glórias, tudo que guarda consigo é maior diante ao perigo de alguma ausência simplória!

Por isso, rincão dolente, te sobram gotas de essência nos teus ciscos de querência espalhados no infinito. Todo um passado bendito não se tomba, não se apaga. E a presença - embora vaga - tem valores, acredito!

O recuerdo que te cobre também me veste, por certo; ...És pendão no campo aberto mesmo que pouco te sobre... Pois, somente um rincão nobre de tão invejável cerno, consegue manter-se eterno na fortuna de ser pobre!!