Aquerenciada
Cavalgou por muitas luas... Esta gaita debochada. Fez no pago sua morada Quando aqui calçou garrão. Rondando um fogo de chão Repontou muitas auroras Tu és a ave canora Na alma xucra do peão.
Ninguém te apertou mais forte, Com carinho mais campeiro, Que o pajador missioneiro Contraponteando com a lua. A própria cruz de Lorena Brilhou em noite de festa Como um lunar fulgurante Na fronte de Tiarajú.
Oráculo do Rio Grande Na comunhão dos andejos; Harmonizou os solfejos Do cantor nas madrugadas, Que, rondando a noite longa; Num semblante fronteiriço, Forneceu arma e municio pro bochincho da ramada.
Foi mais tarde ginetear, Nas mãos de Pedro Lourenço... Onde o encardido do lenço Protegia o coração. Se abria muito pachola Nas asas de uma vaneira, Juntando serra e fronteira No mapa de uma canção.
Um urutau distrai noite Que a madrugada chegou, Quando mareja meus olhos Na saudade que ficou.
Ouço as águas do arroio Quando abres a garganta... As furnas da salamanca... Angüeras, e Boi-ta-tás. Sempre fostes querendona E um “comercio” vira festa... - Que importa se a “penca” presta Se puder te ouvir cantar?
É lindo ver tuas gaitadas Nas pencas lá do bolicho; Nem sequer os “deixa disso” Ou gritos de “já se vieram” Desconcentram teu sonido Encostadinho do ouvido Dos ancestrais dos gaudérios
Aqueceste a noite longa, Sobre o carnal do meu poncho, Escaramuça e se prancha No antebraço da mão. Foste meu altar de juras Testemunhando promessas, Romanceado meio às pressas No silêncio de um galpão.
São somente oito botões Os baixos que tu precisas, Quando a manopla desliza Buscando compasso e tom; Lindo é ver quando trovejas Num confronto de gargantas. Quem amadrinha os que cantam Faz por instinto ou por dom.
Já perdeste a procedência... Pra continuar missioneira. A cúmplice, companheira! Da minha querência flor. O teu lirismo “Jesuíta” Fez-se lema do meu povo; Para reencarnar, de novo, Na alma do pajador.