Payador
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Pajador vem de pajé, o feiticeiro tupi, - o "pa-í" do guarani -, agente bugre da fé, que via além do momento, entendendo a voz do vento, águas, folhas, nuvens, aves, e até os acentos mais graves do ribombar do trovão. De noite, lia nos astros, e, à luz do sol, na manhã, e, se escutava no chão, conhecia, pelos rastros, a Anhanguá, Rudá ou Tupã.
Pois tal temo peregrino - e que isto a todos comforte!- do Nhengatú, lá do norte, e do Abanheenga sulino, tem igual significado ao do latim do passado, e o mesmo nobre quilate: -nosso Pajador é o Vate, filho querido dos deuses, arado cuja lavoura tem sublime tirocínio. Qual a Deméter de Elêusis, o chão do futuro agoura, num fecundo vaticínio.
Devassando, soberano, os mil segredos da sorte, governava a vida e a morte e o próprio destino humano.
Com remédios vegetais, benzeduras e sinais, e nos rituais que fazia, ele mostrava a magia que herdara da natureza. Com a sua medicina, curava os corpos e a mente, e, numa estranha proeza, traduzia a voz divina com os seus dons de vidente.
Igual em fama e valor, em galpão, tropa ou rodeio, abre o peito sem receio o gaúcho pajador. Tape, Minuano ou Charrua, o sangue que nele atua traz o mesmo índio legado. E em seu canto abarbarado, a jorrar que nem cachoeira, vibra um arcano secreto, Pajé do pampa, em seu verso, decifra, à sua maneira, no seu crioulo dialeto, a alma guasca do Universo