Os Olhos Do Negrinho
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Em tempos que já vão longe, - por culpa do Grã-senhor - o mundo era um carneador, - assim na comparação - coberto do sangue rubro, vestido do corpo vivo do negro, pobre cativo, nas garras da escravidão!
Vinham barcos de além mar, galopeando pelas águas, trazendo dores e mágoas num bojo infecto e imundo! e despejavam nos campos dos potreiros do Brasil que se fez, também covil do maior crime do mundo!
Nosso Pampa, por desgraça, foi cúmplice desse crime! Hoje, no entanto, redime a culpa dessa maldade! pois se abriram para as raças, todas as porteiras do pago que cultiva, com afago, a mais pura liberdade!
Mas foi nesse triste tempo que nasceu o Benedito. Um pobre escravo, um negrito que morreu inda na infância. - Nasceu não... surgiu no mundo, como um traste sem valor, e por ordem do “senhor” foi crescendo e ficou sendo o mandalete da estância.
O pobre do Benedito, era pau prá toda obra! Mais ruim que carne de cobra para ele, era o “Senhor”: - Benedito: busca água!... - Benedito, espanta o gado... - Benedito, desgraçado! - Negro ordinário... estopor!
E logo o relho cantava e o Benedito gemia! Apanhava e não sabia porque razão, o coitado! E ficava ali, tremendo, fitando o “Senhor”, sestroso, meio gemendo... choroso, os olhos grandes... parado!
- Benedito, fecha os olhos! - Não me olhes desse jeito! - Toma, negro, tem respeito, não olhes assim, prá mim! E o relho vinha de novo, lanhar o corpo flaquito! - Fecha os olhos, Benedito! - Não me olhes, negro, assim!
E o negrinho se afastava com o olhar escancarado... Pois nem o medo, danado, daquele homem feroz, fazia o negro desviar aquele mirar, profundo, que penetrava no fundo da alma de seu algoz!
- Benedito! Fecha os olhos! - Não me olhes desse jeito! O rancor e o despeito deixavam o “Senhor” aflito. Pois no fundo desse olhar havia um triste segredo... E o “Senhor” já tinha medo dos olhos do Benedito!
À noite, quando o negrinho, depois que a lida findava, corpo moído, se deitava no chão duro da senzala; a lua vinha de manso, furar a palha do teto e o negro, com muito afeto, ficava, rindo, a fitá-la...
E abria mais os olhos para beber o luar, que nunca ouviu reclamar por ele o mirar assim. E feliz, naquele instante, o negrinho, tão pequeno, fechava os olhos, sereno, e adormecia, por fim.
- Benedito, fecha os olhos! - Desvia, negro, esse olhar! - Pois hoje tu vais fechar para sempre, desgraçado! E o monstro humano bateu no negrinho, sem cessar, até o pobre tombar aos seus pés, ensangüentado!
- Fecha os olhos, Benedito! E no corpo, já exangue arrancava carne e sangue sempre a bater, o maldito! Mas o olhar do negrinho mais e mais se escancarava e louco, o “Senhor” gritava: - Fecha os olhos, Benedito!
Até que um negro silêncio susteve o braço assassino. Pois a alma do menino, escravo da negra sorte, fugiu por fim, já cansada de tanto o corpo apanhar, e feliz, foi se entregar aos braços livres da morte!
E o olhar do Benedito nem assim não se fechou. Morto, embora, ali ficou mais e mais escancarado! E o “Senhor” ao ver aquilo, perdeu a luz da consciência e se arrojou na demência a gritar desesperado:
- Benedito, fecha os olhos! - Negro ordinário, maldito! - Benedito, fecha os olhos! - Fecha os olhos, Benedito!!!
E o olhar do Benedito ficou grudado no céu. E uma noite, por entre o véu da neblina do infinito, duas estrelas surgiram a brilhar, fitando o mundo com um olhar grande, profundo, como os olhos do negrito...
E hoje que ainda existe, na consciência universal, a eterna nódoa do mal daquele crime maldito; quanto homem, que ao te ver o par de estrelas brilhar não tem ganas de gritar: - Fecha os olhos, Benedito!!!