Ode as Missões e ao Índio Missioneiro
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Pedaço eterno da história Desarvorado ao relento Que à sombra do esquecimento Solitário se enfumaça Daí saiu a argamassa Que- de tijolo em tijolo- Uniu com barro crioulo Os alicerces da raça.
Vai mais de trezentos anos Se perdendo nas neblinas Que as legendárias batinas Aportaram a este chão Alterando desde então, As velhas feições da terra E abafando hinos de guerra Dos sinos da redução.
Nem se fundara o Rio Grande, Nem o lendário Viamão. O pago era céu e chão Cochilha, várzea e perau. Já o Uruguai dera vau Numa apoteose bravia, E o gaúcho antenacia No velho São Nicolau.
Desde aí- essa gleba imensa- Chamuscada a casco e raio Foi sempre o tubo de ensaio Da Raça que se moldava E na mente do TUXAVA Primitiva, intemerata, A idéia vaga de pátria Crescia e se delineava.
Muito distante e alheio Às ambições de Castela, Amava a terra, e por ela, Despreocupado morria E no mas, só conhecia, Além de algum sortilégio, O incomparável colégio Da campeira geografia.
Recebeu do Jesuíta, Quase a par do catecismo, Noções de militarismo E até lampejos de arte, Mas, mesmo erguendo um baluarte, No seio desta campanha Pouco lhe importava a Espanha Tinha o chão por estandarte.
Tinha horror ao Bandeirante Que vinha de além Laguna, Bater a pampa reiúna, Na mal sina da preagem, E tão xucra era a coragem Que desde o berço trazia Que o missioneiro morria Pra não prestar vassalagem.
Veio então, o português, Ao continente D’EL REY Arvorado em Juiz e Lei, Trazendo um mar de soldados, Mercenários apegados, Menos ao ideal, que o soldo, Roubando e queimando toldo Na execução de Tratados.
E qual seria, patrício, A reação, em qualquer Era? Quando até, da própria fera, Se reconhece o covil? Correu o sangue viril, Neste imenso território Que foi o laboratório Do gaúcho do Brasil.
E foi o filho da terra De melenas desgrelhadas, O dono destas canhadas Reduto onde se criara, Que, de lança de taquara, Escreveu sobre a planura Com sangue, a velha escritura, Do Rio Grande Tapejara.
E fica então a pergunta: Qual dos três seria intruso? O Índio, o Espanhol, o Luso? A história e parcial, se cala, Mas quando o coraçãofala, No tribunal da consciência, Preste ao índio, reverência, Pois é injustiça, negá-la.
Enalteçamos os feitos E as conquistas lusitanas, Trancemos nobres hosanas, Quarteando o velho Camões, Mas guardemos as Missões No próprio seio da história Porque foram berço e glória, Das mais caras tradições.
Parece até uma mentira Que hoje alguns pesquisadores Os eternos grã-senhores, Dos julgamentos parciais, Tentem riscar dos Anais Da nossa história guerreira Toda o Região Missioneira, E com ela, os seus Naturais.
Porque será que se calam Com referência ao Nativo Que foi o fator ativo Na conquista Missioneira? Porque toda essa ciumeira Que se nota por aí Se até uma bugra daqui Casou com Pinto Bandeira?
Não se compreende a esta altura Tão ferrenha intransigência Ao filho desta Querência De legendária Memória. Pra que negar-lhe a história Lugar de predominância, Se até o peão de estância Riscou daqui a trajetória?
Pois quando Borges do Canto, Com Pedroso e outros mais, Escramuçava os baguais Na epopéia triunfante, Era o bugre ignorante Das reduções Missioneiras Que encabeçava as fileiras Levando tudo por diante.
Guardemos ciosos os feitos De um José Borges do Canto, Conquistando este chão Santo Com denodo extraordinário, Mas ninguém mande ao contrário, Que o Ìndio seja exaltado Pois foi o maior soldado Deste feito legendário.
É ele que, em Trinta e Cinco Luta, de um e de outro lado, É ele que, batizado, Nas barranca do Uruguai, Deixa a querência e se vai, Com bravura e sacrifício, Hastear o Pendão, Patrício, Nos cochos do Paraguai.
Monumentos a estrangeiros Hoje se vê em qualquer praça, Mas ao precursor da Raça Não há a mínima lembrança, Nem ao Pingo, nem a Lança, De taquara chamuscada, Que foi a primeira espada Do meu Rio Grande, criança.
Um dia, índio missioneiro, Rio grandense, pura flor, Nós te haveremos de pôr, No tronoa quetens direito, Ombro a ombro, peito a peito, Com Bandeira e Canabarro, Como tu, do mesmo barro, Do qual o guasca foi feito.
Já não se escuta teus gritos Ao longo das Sesmarias, Nem tampouco a algaravia Do tenebroso Pagé, Mas tu ficaste de pé Tigre imortal das Campinas, Na evocação de umas Ruínas E no culto de Sepé.
E podes dormir tranqüilo Palanque inicial da história, Tu viverás na memória Tão grande como teu sono E qual Monarca, no trono, Dos mais altos monumentos Gritarás aos quatro ventos “Esta querência tem dono”.