Alma em Verso
Poesia

O preço da Lã

Maximiliano Alves de Moraes

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João Albino andava triste Porque a lã não vale nada! Não, Albino não era estancieiro, Ele era esquilador, Desses que tiram quarenta Sem soltar uma cortada! Nos áureos tempos da lã Fora um tesoura afamado, Índio desses que a comparsa Respeitava ao fim do dia. Braço firme e mão macia Pra o fino choro do aço. Mestre no ofício da tosa E ligeiro na folha dupla, Quando o maneado, num upa, Levantava cor de rosa! Dali tirava o sustento, Da safra pra o ano inteiro, Do fim de agosto a janeiro Forrava o poncho de “plata”. Chega a crise de repente E a lã de um quatro dentes Já mal pagava uma lata! E assim andava triste Em seu fundo de rincão. As comparsas se extinguiram, Extinguiu-se sua função. Não havia mais rebanhos Nas estâncias de fronteira, As tesouras silenciaram, O martelo e o motor. Os merinos acabaram, Era o fim do esquilador! Todo homem move a vida Em função do seu labor. A guitarra é necessária Pra o ofício do cantor, Não bota boia na mesa Sem chuva o agricultor. E é assim, Torce a vida de repente Sem esquila o esquilador!

E quando a vida se torce Viram conceitos, Viram sonhos, Revira-se a alma... Albino, pai de família, Passou a arrodear o rancho Engordando mais a lista Dos miles desempregados. E um dia atrás do outro É uma era pra um sem posses! Não sabia domar potros, Não lidava com “alambre”, Na lavoura o maquinário Tirou o serviço do pobre. Até o por dia em estância Tornou-se uma coisa rara, E era o que dava alguns cobres. Um homem tem seus valores E para um homem de bem O palanque dos demais É a tal dignidade! Mas quem ouvir acredite, A dignidade de um homem Sai pela alma ao tranquito Quando entra pela boca A impiedosa e amarga fome! O mais novo do Albino Chorava copiosamente Pedindo boia pra o pai E na fiambreira do rancho Só ganchos e nada mais! João Albino sai pra fora Com um cravo no coração Andando uns poucos passos Até a cerca que lindava Com a Estância do Lagoão! Corre os olhos no horizonte Mirando as nuvens alvas Que cruzavam lá no azul, Como o velo das merinas Estendidos pela cancha Quando a lã valia muito Nestas fronteiras do sul. Abaixo do olhar distante Pastavam no campo fino, Onde pastavam merinos, Uma tropa de poleangas, Das que empurram matambre E pastam escaramuçando.

Albino no parapeito Olhava com dor no peito Ouvindo o filho chorando. A dignidade de um homem Perde a doma Pela espora da fome! Um sovéu de “três ramal”, Uma armada certeira E a velha faca afiada. Berrava à boca da noite Uma poleanga sangrada! Cessava o choro no rancho, Graxa pingando ao fogão. Quem manejava “Coroas” Era agora um ladrão! Um dos Miles deste mundo, Mas um de mão calejada, Cabo de tesoura afiada E espinho de lã fronteira. De alma já caborteira Pela poleanga carneada! Roubar do outro é um crime Pelas culturas sociais, Matar a fome de um filho É instinto dos animais. Quem compreender João Albino? Talvez o compreendam os pais! Não foi só aquela poleanga, Pois não foi só aquele choro Que soou dentro do rancho, Uma “Coroa” num gancho E num outro um quarto alheio. Menos uma no rodeio Sem sobrevoar de caranchos! E a lei da humanidade Irá punir João Albino, Que pela força do instinto Matou a fome do filho! Os que embolsavam velos, Os que atavam e levantavam, Os que curavam cortadas E por deboche pealavam, Andam mesmo que o Albino, Mirando velos no céu. Talvez andem poleangando Com faca afiada e sovéu! Jamais será permitido Apossar-se do alheio, Mas como aceitar a vida! Vacas gordas no rodeio, Pastagem buena dobrando E do outro lado da cerca Fome rondando a divisa E uma criança chorando! Albino será julgado Por quem se julgar capaz, Por quem tem a sua paz Bem longe de um rincão, De um rancho, fogo de chão, Pintado de picumã. Por quem tem certo o amanhã E não depende de ovelhas, Não depende de “Coroas” E nem do preço da lã!