O General
Publicado em
Os olhos voaram longe com asas rubras de sangue E até a penumbra calou... O gosto afiado do aço ainda pairava cortando O tempo escasso de alguém. As mãos tremiam cansadas de prosas brabas de adaga Que o vento não apagou... As rugas cortavam fundo essas histórias que o mundo Contava como ninguém.
O General suspirava num sorriso entorpecido, Entre o inferno e o céu... Cargas, tropéis, entreveros, ressurgiam caborteiros Entre suas brumas insanas; O General delirava envolto por seus fantasmas, No mais estranho quartel... E percebeu nesse brete que a vida é um mero joguete Nas mãos de feras humanas!
Havia gritos de chega, havia fios insaciáveis... Haviam homens caídos e gargantas coloradas... A vida, a misericórdia, eram itens descartáveis Num tempo em que o pensamento jogava cartas marcadas.
O General sucumbia a esses fantasmas famintos Inventando labirintos na sua alma cansada... Num tempo em que a nossa gente desemalou seus instintos, O General renascia no ventre frio da espada.
Tantas cabeças rolavam, tanto sangue borbulhava... Banditismo vinha solto, já sem prumo ou ocasião; Uma época medonha, onde a regra era a impiedade Imperando em todo lado... E ele não foi exceção.
Fez o que era preciso, não pestanejou, disseram... Por dentro nem Deus sabia das tarcas de tantas vidas; Que apesar de perdidas ele contava em segredo E arquivava com seus medos em gavetas escondidas. No Rio Negro seus confrades jorraram sangue na terra... No Boi Preto os inimigos viraram baixas de guerra; Estranho pêndulo infame vagando entre o mal e o mal, Surgindo assim estampado nos olhos do General!
O mal hipnotizava com sua voz de sereia, Enredando os combatentes no visgo da sua teia... Tantos homens de respeito deixaram suas famílias Pra soltar monstros do peito no fio fatal das guerrilhas.
O General refletia e jamais esmorecia Pois não podia parar... Alicerçando um ideal, a guerra num temporal, Tinha virado seu par. Antes que a festa acabasse ela saiu à francesa E ele ficou no salão... Se recolheu, ficou velho, nesse remoto hemisfério Entre delírio e razão.
Já não contava pecados ou fantasmas derrubados Por filas de dominós; Vasculhava o povoado com um sapato de vidro, Buscando o pé e o sentido Da guerra, que virou pó... Mas encontrou foi a morte E ali ficaram a sós.
Embriagado, dançou ao som que a guerra tocou Com seus acordes de louca... E no momento final a alma do General Beijou a morte na boca!