O Farrapo que Sobrou
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Quantos anos se passaram Da mais sangrenta batalha No peito invés de medalha Só cicatrizes restaram De lanças que se cravaram Neste peito de índio guapo Que com os outros farrapos A nossa pampa marcaram.
Não vim para contar vantagens Nem tão pouco heroísmo Vim abrir meu catecísmo Escrito a ferro e bala Trago os fiapos do meu pala Ensangüentado até o meio Que eu uso em qualquer rodeio Ou mesmo em noites de gala.
Minhas vestimentas ainda são As mesmas daquela vez Quando no pampa se fez Trovoadas de pata e lança Eu era ainda criança Mas participei da guerra Quando marcamos a terra Pra lhe deixar como herança.
Foi com patas de cavalo Não foi com tanques de guerra Que desde a fronteira até a serra Marcamos nossas divisas Foi com fiapos de camisas Que mal cobriam o peito Foi bem assim deste jeito Que forjou-se o chão que pisas.
Com nossas roupas em frangalhos Pois fardamento não tinha Mais parecia uma rinha Esta luta enfurecida Porque a cada investida Que dava o povo farrapo O sangue banhava os fiapos Da nossa roupa encardida.
Nem com isso enfraquecia Nossos ideais de luta Pois o sangue de um recruta Quando tomava um balaço Na terra fazia um traço Por onde o sangue corria E era assim que se fundia Da pampa cada pedaço.
Foram dez anos de luta De coragem e resistência Para transformar a querência Em rincão cheio de entono Não deixar no abandono Por isso fizemos guerra Para entregar este terra Para os verdadeiros donos.
Por isso compatriotas Ouçam a voz deste farrapo Que ainda conserva os trapos Que o tempo glorificou Do farrapo que sobrou Depois das lutas vencidas Só me restaram as feridas Que o tempo cicatrizou.
------------------------------------------ Poema da Obra em Coletânea: A Querência da Poesia em Versos