O choro do gado
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Um mugido imponente Prenunciou o mau agouro!
O touro brasino selvagem, Num berro de advertência, Anunciara aos quatro cantos A morte recém chegada Do velho touro monarca...
O eco da voz sentida, No seu tom de pena e dor, Cruzou fronteiras marcadas, Intimando ao gado arisco, A comparecer na coxilha, Pra mais um triste funeral...
Quem saberia explicar O sentimento do touro, Em seu instinto fraterno Que, triste, veio anunciar?
Bicho! Bicho sem alma Apenas, bicho!
Das canhadas mais longínquas O gado se apresentava De pronto para o chamado!
Do mato fechado, dos lajeados, Das encostas, dos banhados... De todos os cantos se ouvia O eco da intimação...
O rebanho xucro, de toda estirpe, Se aproximava em silêncio, Parecendo tropa mansa No rumo do matadouro...
Num tranco lento e arrastado A procissão ganhava corpo... O sol, que ardente queimava, Multiplicava a comitiva Nas sombras em movimento...
Nas sesmarias de campo, Todos ouviam o comando Que de pronto se espalhava Pelo mugir dos ponteiros...
Neste mandado de improviso, Mais pareciam chasqueiros Cruzando as glebas do pago, Levando a diante o recado De uma milícia pra outra, Que algum general das tropas, Nalguma luta da pampa, Havia tombado solito!...
Que coisa esquisita pensar Que um bicho tosco, abarbarado, De astúcia questionável, Tendo morrido por velho, Todos os filhos e netos, De pelagens diferentes, Cruzaram léguas de campo Pra contemplar o finado E de pena, chorar...
Chorar a morte de um irmão... Apenas... chorar a morte de alguém...
Quem explica o choro do gado? Explica pra mim também! .................................................
No alambrado da encosta Uma coruja chambona Retrucava o jogo da vida Num tom agudo, silente, Zombando a morte do touro Num tom brejeiro, menor.
A tropa tristonha, reunida, Na tardinha em despedida, Formava um retrato memorável De um redondél de lamurias...
Foi quando um mugido imponente Do tourito legatário Quebrou o silêncio da hora No trovejar da garganta...
Um imenso coral de mugidos Na tarde morna, caindo, Confundia o naipe das vozes Nos semitons entristecidos...
Na palidez estaqueada Do velho touro patriarca, Se via a triste derrota Do lendário comandante, Que a tropa sempre obedeceu... ....................................................
Quem sabe a aflição da partida Adentra na alma do bicho Da mesma forma que a dor Nos quebranta o coração...
Por isso o choro do gado arisco Tens o mesmo sentimento e pesar Dos que choram a morte de um irmão...
Quando o sol já se escondia Por entre o capão do fundo Um berro de despedida Fez a tropa voltar ao campo Pra pastorear sentimentos...
E assim, se foram ao longe... Desmanchando a procissão...
Por vez algum desgarrado Olhava pra traz com pena Como a despedir-se no más...
E no trono da coxilha Ficou o valente patriarca Deitado como dormindo, Pra não voltar nunca mais... ....................
Quem viu o choro do gado Nesta tarde de pesar, Talvez não mais vai contemplar Este momento “irracional”...
A mim, resta chorar a lembrança E contestar o ditado de que Bicho não tem alma, Pois agora, com toda a calma, Depois de ver o choro do gado, Resta juntar os pedaços de mim!
Minguante de Março de 2008