Alma em Verso
Poesia

O Choro do Campo

Sebastião Teixeira Corrêa

Publicado em

(Aos homens do campo que hoje enfrentam, sem amparo, a covardia dos criminosos, criando gravíssimo problema econômico e social.)

A dor e a revolta Inundam meus olhos E o quadro de morte me fere a retina Ao lembrar, às vezes... ...O choro das rezes entrou noite a dentro, E o triste lamento fez éco comprido Nos fundos da grota... A lua morrendo na dobra do cerro E a dalva, ainda, dormindo seu sono. O gado pastando na flor da coxilha, Alguns ruminando na relva molhada Da noite passada que a chuva deixou Beirando o capão, no escuro das sombras, Apenas os vultos de hábeis matreiros. O gado na mira, sequer suspeitava Que olhos ligeiros de feras humanas Rondavam na volta, com sede de sangue De laço empunhado, o bando avança Por sobre o rebanho que alheio descansa, E pasta e rumina na flor da coxilha. A faca chairada tem hábil destreza Na mão dos vaqueanos; Vantagem de sobra garante a surpresa E tomba sangrada a primeira novilha As gordas barrigas, de férteis prenhezes, Pesadas, retardam a fuga das rezes E as vacas sucubem no gelo do aço; Não tem importância; das vacas carneadas, A cria sequer lhes é retirada, Porque das carcaças só querem pedaços O dia amanhece mostrando uma cena De horror e tristeza num campo arrasado. O luto se espalha com cheiro de morte, Há sangue no pasto; há restos dos bichos, Assombros inertes, enfim, mutilados As feras humanas se enfurnam de dia E à noite campeiam por alvos iguais. Mas, alguém recebe, a troco de uns pilas, O torpe produto e assim alimenta O crime maldito que avança nas filas Daqueles que sofrem: Os homens rurais O Estado apenas engrossa miradas, Porque certas coisas não quer enxergar: Lamenta o campeiro na dor do abandono, E não se conforma, pois já não é dono Do seu patrimônio, regado a suor E quando se busca amparo no povo Apenas se houve vazias promessas. Aos olhos daqueles que ostentam poderes, E engordam salários e ocultam deveres, Que às vezes chamamos de autoridades; - Não é relevante apenas o fato... Por isso é que o crime do abigeato Não entra no rol das prioridades Somente tristeza no amargo da cena, Do choro do gado berrando no sangue Do seu semelhante. A dor, que é imensa, faz éco à distância, E o luto da estância é forte o bastante Pra roubar os sonhos de quem tem no campo Razões pra viver. Um grito de basta se faz necessário, E um gesto mais forte, com mão de governo, Que venha no pulso da autoridade Mostrando vontade para proteger Que a dor dos mugidos Do gado chorando Ecoe tão alto, que o alto comando Escute o lamento das rezes de joelhos e de alma ferida. Que um dia encontrem razões pra frear O crime que alastra sem nunca parar, Em nome do campo e em nome da vida!!!