O Cavalo Pensante
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Um causo... Uma canha... Outro causo... Outra canha... Uma estrela, outra estrela, mais uma, mais dez, mais mil... - Diz que a Zaina do Umbelino Tá inscrita nas penca do Jango. - Vai cumê poeirai... Uma escarvada, mais outra, mais outra e a sacudida ruidosa dos arreios. Velhaco. O farol de querosene Caricatura vultos flutuantes no mapa das paredes encardidas... - Diz que pode surprendê um cinquentão que vai entrá. - É. Meio-sangue árabe é um raio! Cerra a noite nos vales, nos montes, nas mentes nos olhos brilhosos. Fumaça... Um copo... dois copos... Um pulpero... Outro! Um cavalo, uma tropilha... Um lagoão, uma ilha... Setenta anos de vida, Vinte e cinco de viuvez. - Bote um duplo, Seu Nemêncio, para simplificar de vez. Em silêncio, enche o bolicheiro, solene, como um padre no Lavabo. Uma consciência... uma semi... uma in... Até que enfim sai pra fora, arrastando, corpo, espora e uma vida toda desamor e solidão. Seu Nemêncio aperta a cincha e ajuda a montar. Tapeia a anca e Velhaco pega a volta. Tranco... Tranco... Tranco... Nemêncio escuta até não ouvir mais. - Ainda vai se matar!... Também, viver pra quê? Pro Posto, carreteiro --charque-de-ovelha, bolicheando, domingueiras, mate só... Os filhos, num mundo errado... A velha, no outro. Velhaco leva o peso bamboleante e pensa: - PORQUE os homens não se entropilham e não repartem pastos e aguadas, andam sós e famintos! - PORQUE os homens não relincham, vão esquecendo o canto da terra! - PORQUE os homens vão aos boliches, não veem a noite e perdem os rumos. - PORQUE os homens nos capam, perdem os filhos e as mulheres. - PORQUE os homens nos judiam na doma, são esporeados no âmago da alma. - PORQUE os homens copulam sem tempo, não gozam primaveras e desgastam o amor. - PORQUE os homens nos fazem correr por ganância, perdem plata e as estribeiras. - PORQUE os homens nos embretam e confinam em haras, vivem como sardinhas em cadeias e malocas... - PORQUE, na velhice, nos vendem pra salame, lotam hospícios, maldizendo ingratos!"" Param. A porteira. Lebrão desaba como um tronco podre. - "PORQUE não temos dedos nas mãos, não podemos levantá-los do chão"... O tombo desperta o homem que rebenqueia em bravatas: IMBECIL, ANIMAL! A voz empastada e desigual. Enfim, as casas... Mas, como é agosto e Sexta-feira, Grita: O de casa! Vá que a alma da finada Ande, encamada, rondando pelo rancho...!